Instabilidade crônica do tornozelo: quando o tornozelo vive torcendo
Dr. Caio Fábio — CRM-CE 12791 · RQE 8590Resposta rápida
Instabilidade crônica do tornozelo é a sensação de tornozelo frouxo e as entorses de repetição que ficam depois de uma torção mal reabilitada, e pode ser mecânica (o ligamento realmente frouxo) ou funcional (o ligamento cicatrizou, mas o equilíbrio nunca voltou). O tratamento começa sempre pela reabilitação com equilíbrio e fortalecimento, e a cirurgia entra apenas quando esse caminho, bem conduzido, não resolve.

Instabilidade crônica do tornozelo: a resposta rápida
Você já tratou a entorse aguda — proteção, elevação, talvez até fisioterapia nos primeiros dias —, mas o tornozelo nunca voltou a ser o mesmo. Ele torce de novo num desnível pequeno da calçada, numa pisada mais rápida no beach tennis, num degrau que mal se nota. Às vezes nem chega a torcer de verdade: só aquela sensação de que vai torcer, o chamado "falseio", ou a impressão de um tornozelo frouxo que não inspira confiança para pisar em chão irregular. Se esse padrão te descreve meses ou anos depois de uma entorse que você considerava resolvida, o quadro provavelmente tem nome: instabilidade crônica do tornozelo.
Este texto é a continuação natural do artigo sobre entorse de tornozelo — vale a leitura se a sua torção foi recente. Aqui, a pergunta é outra: o que fazer quando o mesmo tornozelo já torceu várias vezes, ou quando ele simplesmente parou de parecer confiável, mesmo sem uma nova torção "oficial"? A resposta passa por entender a diferença entre instabilidade mecânica e funcional, por que a reabilitação vem antes de qualquer procedimento na maioria dos casos, e quando a avaliação especializada — e eventualmente a cirurgia — entra em cena, sempre a partir de fontes científicas verificadas.
Instabilidade mecânica e funcional: duas causas, um mesmo padrão
Formalmente, a instabilidade crônica do tornozelo é definida como um quadro que persiste por mais de 12 meses depois de uma entorse lateral, caracterizado pela tendência a entorses de repetição, episódios frequentes de falseio — a sensação do tornozelo "cedendo" para o lado — e sintomas persistentes como dor, inchaço e fraqueza (Hertel & Corbett, 2019). Não é, portanto, apenas um tornozelo que ainda dói de vez em quando: é um padrão funcional específico, e reconhecer esse padrão é o primeiro passo da avaliação.
Um ponto que costuma surpreender: nem toda instabilidade crônica tem o ligamento realmente frouxo. A literatura distingue duas formas, que podem coexistir. Na instabilidade mecânica, existe frouxidão real da articulação, identificável ao exame físico — o ligamento cicatrizou de forma alongada, sem a tensão original. Na instabilidade funcional, o ligamento cicatrizou de maneira estruturalmente adequada, mas o sistema de equilíbrio e controle neuromuscular ao redor do tornozelo — a propriocepção — nunca foi treinado de volta ao nível anterior à lesão. Na prática, é a instabilidade funcional que explica a maior parte dos casos que chegam ao consultório, e é por isso que o tratamento raramente começa pela cirurgia (Hertel & Corbett, 2019).
Por que acontece: a entorse que não foi totalmente reabilitada
A causa mais comum da instabilidade crônica não é um evento único, e sim um processo: uma entorse lateral — a lesão musculoesquelética mais frequente entre pessoas fisicamente ativas — que não recebeu reabilitação completa (Gribble et al., 2016). Estudos mostram que até 40% das pessoas que sofrem uma primeira entorse lateral desenvolvem instabilidade crônica do tornozelo (Hertel & Corbett, 2019); um estudo que acompanhou 362 pacientes por cerca de três anos encontrou uma proporção semelhante, de 36% (Zhang et al., 2023).
O que costuma faltar não é tempo de repouso, e sim a fase da reabilitação mais frequentemente pulada: o treino de equilíbrio e propriocepção. Uma revisão sistemática que comparou diferentes intervenções terapêuticas para instabilidade crônica encontrou que o treino de equilíbrio foi a categoria com os resultados mais consistentes de melhora da função relatada pelo paciente, à frente de outras abordagens isoladas (Kosik et al., 2016). Já nas duas primeiras semanas depois da entorse, a dificuldade em completar tarefas de salto e aterrissagem ajuda a prever quem vai evoluir para instabilidade crônica — um sinal precoce de que a reabilitação completa faz diferença (Doherty et al., 2016).
O que acontece se você não trata
Sem reabilitação, o padrão tende a se repetir e se agravar: cada nova entorse, além de doer, tende a acrescentar um pouco mais de dano à cartilagem da articulação. É por isso que a cronicidade da instabilidade se associa a menos atividade física, pior qualidade de vida e um caminho que pode levar à artrose no tornozelo — que, diferente da artrose do joelho, costuma ter justamente essa origem pós-traumática (Gribble et al., 2016).
Além disso, entorses de repetição podem esconder lesões associadas que só aparecem numa investigação mais completa. Em pacientes que evoluíram para instabilidade crônica depois de uma primeira entorse, a ressonância magnética identificou com mais frequência lesão do ligamento talofibular posterior, uma área extensa de edema ósseo no tálus e derrame articular mais importante — achados que ajudam a explicar por que a articulação segue incomodando mesmo quando o ligamento lateral principal já cicatrizou (Zhang et al., 2023).
Diagnóstico: exame clínico e quando pedir imagem
A avaliação começa pelo exame físico, com dois testes clássicos: o teste da gaveta anterior, que avalia o deslizamento do tálus para a frente dentro da articulação, e o teste de inclinação talar, que avalia o quanto o tálus se inclina para os lados — ambos ajudam a identificar frouxidão mecânica real, quando ela existe. Como ferramenta complementar de autorrelato, pesquisadores e clínicos usam questionários validados, como o Cumberland Ankle Instability Tool, criado e testado justamente para medir a gravidade da instabilidade funcional do tornozelo de forma padronizada (Hiller et al., 2006).
A radiografia com carga ajuda a descartar outras causas de dor persistente, e a ressonância magnética entra quando a avaliação clínica sugere uma lesão associada — na cartilagem do tálus, nos tendões fibulares ou na sindesmose — ou quando a cirurgia está sendo considerada como próximo passo (Zhang et al., 2023).
Tratamento conservador: a reabilitação vem sempre primeiro
Independentemente de a instabilidade ser mais mecânica ou mais funcional, a reabilitação estruturada é o tratamento inicial recomendado, e a diretriz de prática clínica mais recente sobre entorses e instabilidade do tornozelo reforça esse ponto: exercício terapêutico, com ênfase em equilíbrio, propriocepção e fortalecimento — especialmente dos músculos fibulares, que protegem o tornozelo contra uma nova inversão — tem o maior nível de evidência entre as intervenções disponíveis (Martin et al., 2021). No consultório, essa fase costuma ser conduzida em parceria com a Dra. Lucymilla Guimaro.
Uma tornozeleira ou bandagem, no retorno ao esporte, pode funcionar como proteção adicional enquanto a confiança e a força voltam — mas, como já vale para a entorse recente, ela não substitui o treino de equilíbrio, e não deveria virar uma muleta permanente usada no lugar da reabilitação.
Proloterapia: uma opção em casos selecionados
Para quem já passou por reabilitação bem conduzida e ainda convive com instabilidade, a proloterapia com dextrose vem sendo estudada como opção complementar. Um ensaio clínico randomizado e controlado por placebo, com um ano de acompanhamento, encontrou melhora do equilíbrio postural dinâmico e menor risco de novas entorses no grupo que recebeu injeções de dextrose no ligamento talofibular anterior, em comparação com soro fisiológico — embora não tenha havido diferença estatística entre os grupos na pontuação do questionário de instabilidade usado como desfecho principal (Sit et al., 2025). É uma opção discutida caso a caso, nunca como substituto da reabilitação — mais detalhes em proloterapia.
Quando a cirurgia entra
A cirurgia é reservada para quem não respondeu a um programa de reabilitação bem conduzido, ou para lesões associadas específicas identificadas na avaliação — nunca a primeira opção. A técnica mais usada é o reparo do ligamento lateral, conhecido como procedimento de Broström (ou Broström-Gould, quando associado ao reforço do retináculo extensor), que pode ser feito de forma aberta ou por via artroscópica. Uma revisão sistemática que comparou as duas vias encontrou resultados clínicos semelhantes entre elas, sem diferença significativa nos desfechos avaliados (Song & Hua, 2019) — a escolha da técnica é uma decisão individualizada, tomada junto com o cirurgião, e não uma questão de uma via ser superior à outra de forma isolada.
Quando procurar avaliação
Vale buscar uma avaliação especializada quando o mesmo tornozelo já torceu mais de uma vez, quando a sensação de falseio ou de tornozelo frouxo persiste meses depois da última entorse, ou quando a insegurança para pisar em chão irregular — um problema comum entre quem pratica beach tennis ou corre na areia em Eusébio — já mudou a forma como você se movimenta. Nenhum desses sinais exige que você espere a dor piorar para procurar ajuda.
Atendimento em Fortaleza e Eusébio
A instabilidade crônica do tornozelo é uma das consequências mais evitáveis — e menos discutidas — de uma entorse que parece ter sarado, mas nunca foi totalmente reabilitada. Do beach tennis e da corrida na areia de Eusébio ao futebol de fim de semana, é uma queixa recorrente entre quem já torceu o tornozelo mais de uma vez e não confia mais no próprio pé em chão irregular.
Eu sou o Dr. Caio Fábio, ortopedista especializado em pé e tornozelo, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590. Na avaliação, investigo se a instabilidade é mais mecânica ou funcional, construo o programa de reabilitação com a Dra. Lucymilla Guimaro e, quando necessário, discuto as opções seguintes — da proloterapia à cirurgia. Atendo em Fortaleza (Meireles) e no consultório de Eusébio, com estacionamento no local em ambas as unidades.
Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para uma primeira orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.
Referências científicas (9)
- Gribble PA et al. (2016). Evidence review for the 2016 International Ankle Consortium consensus statement on the prevalence, impact and long-term consequences of lateral ankle sprains. British Journal of Sports Medicine. DOI 10.1136/bjsports-2016-096189
- Hertel J & Corbett RO (2019). An Updated Model of Chronic Ankle Instability. Journal of Athletic Training. DOI 10.4085/1062-6050-344-18
- Doherty C et al. (2016). Recovery From a First-Time Lateral Ankle Sprain and the Predictors of Chronic Ankle Instability: A Prospective Cohort Analysis. The American Journal of Sports Medicine. DOI 10.1177/0363546516628870
- Zhang J et al. (2023). Risk factors for chronic ankle instability after first episode of lateral ankle sprain: a retrospective analysis of 362 cases. Journal of Sport and Health Science. DOI 10.1016/j.jshs.2023.03.005
- Kosik KB et al. (2016). Therapeutic interventions for improving self-reported function in patients with chronic ankle instability: a systematic review. British Journal of Sports Medicine. DOI 10.1136/bjsports-2016-096534
- Martin RL et al. (2021). Ankle Stability and Movement Coordination Impairments: Lateral Ankle Ligament Sprains Revision 2021. The Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy. DOI 10.2519/jospt.2021.0302
- Hiller CE et al. (2006). The Cumberland Ankle Instability Tool: A Report of Validity and Reliability Testing. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. DOI 10.1016/j.apmr.2006.05.022
- Song YJ & Hua YH (2019). Similar Outcomes at Early Term After Arthroscopic or Open Repair of Chronic Ankle Instability: A Systematic Review and Meta-Analysis. The Journal of Foot and Ankle Surgery. DOI 10.1053/j.jfas.2018.08.026
- Sit RWS et al. (2025). Dextrose Prolotherapy Injection Improves Dynamic Postural Balance and Reduces Risk of Recurrent Sprains in Chronic Ankle Instability: A 1-Year Randomized Placebo-Controlled Trial. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. DOI 10.1016/j.apmr.2025.11.032
Referências verificadas em bases indexadas (PubMed) antes da publicação. O texto resume os achados de forma acessível; a leitura dos estudos originais é recomendada para o aprofundamento técnico.
Perguntas frequentes
Por que meu tornozelo vive torcendo?
Provavelmente porque uma entorse anterior não recebeu reabilitação completa, em especial a fase de equilíbrio e propriocepção. Até 40% das pessoas que sofrem uma primeira entorse lateral desenvolvem instabilidade crônica, um quadro de entorses de repetição e sensação de falseio (Hertel & Corbett, 2019; Zhang et al., 2023).
Tornozeleira resolve?
Ajuda como proteção adicional no retorno ao esporte, mas não substitui o treino de equilíbrio e o fortalecimento dos fibulares, que são a base do tratamento. Usá-la no lugar da reabilitação tende a manter o problema.
Dá para tratar sem cirurgia?
Sim, na maioria dos casos. A reabilitação estruturada — equilíbrio, propriocepção e fortalecimento — é a intervenção com evidência mais consistente e deve ser sempre a primeira linha, independentemente de a instabilidade ser mecânica ou funcional (Martin et al., 2021).
O que acontece se eu não tratar?
O tornozelo tende a torcer com cada vez menos esforço, e cada nova entorse acrescenta um pouco mais de dano à cartilagem — um caminho que pode levar à artrose pós-traumática do tornozelo ao longo dos anos (Gribble et al., 2016).
Como é a cirurgia?
A técnica mais usada é o reparo do ligamento lateral (procedimento de Broström), feito de forma aberta ou por via artroscópica, com resultados clínicos semelhantes entre as duas vias (Song & Hua, 2019). É reservada para quem não respondeu à reabilitação bem conduzida.
Quanto tempo de reabilitação?
Não há um prazo único estabelecido na literatura — depende do grau do comprometimento, da aderência ao programa de equilíbrio e fortalecimento e da resposta individual. A avaliação profissional ajuda a definir a expectativa em cada caso.
Continue a leitura

Entorse de tornozelo: torci o tornozelo, e agora?
Entorse de tornozelo é o estiramento ou a rotura dos ligamentos que estabilizam o tornozelo, quase sempre com o pé "virando para dentro" de forma brusca. Nas primeiras horas, proteger, elevar e comprimir o tornozelo ajuda a controlar o quadro — o gelo pode aliviar a dor em períodos curtos, mas o repouso absoluto ficou para trás —, e dor no osso ou incapacidade de dar alguns passos pedem radiografia, sendo a reabilitação bem feita o que evita o tornozelo instável que torce de novo.

Artrose no tornozelo e pé: sintomas e tratamentos sem cirurgia
A artrose do tornozelo é diferente da do joelho e do quadril: na maioria das vezes ela é pós-traumática, consequência de entorses graves e fraturas antigas, e por isso costuma aparecer em pessoas mais jovens. O tratamento começa sempre conservador — ajuste de carga, calçado e órteses, fortalecimento e fisioterapia —, com infiltrações e procedimentos considerados conforme a resposta e a avaliação individual.

Dor no tornozelo: o que pode ser e como tratar
Dor no tornozelo é sintoma, não diagnóstico: as perguntas que organizam a investigação são se houve torção, onde exatamente dói e há quanto tempo. Depois de uma entorse mal reabilitada, até 4 em cada 10 pessoas desenvolvem instabilidade crônica — a causa mais evitável e menos discutida da dor persistente no tornozelo.
Tem dúvidas sobre o seu caso?
Fale diretamente pelo WhatsApp (85) 99826-1867 e agende uma avaliação para uma orientação individualizada.
Este site tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Publicidade médica em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.