Medicina Regenerativa

Viscossuplementação com ácido hialurônico: o que é e quando é indicada

19 de agosto de 202611 min de leitura
Dr. Caio Fábio, ortopedistaDr. Caio Fábio CRM-CE 12791 · RQE 8590

Resposta rápida

Viscossuplementação é a injeção de ácido hialurônico dentro da articulação para melhorar a lubrificação e o amortecimento do líquido articular, usada principalmente no tratamento da artrose. Os resultados são mais consistentes na artrose leve a moderada; em outras situações, incluindo o tornozelo, a evidência é menos uniforme, e a indicação passa a ser uma decisão individual, caso a caso.

Viscossuplementação: ácido hialurônico intra-articular para artrose e dor articular crônica — Dr. Caio Fábio

O que é viscossuplementação

Viscossuplementação é o nome dado à injeção de ácido hialurônico diretamente dentro de uma articulação. O ácido hialurônico é uma substância que o próprio corpo produz naturalmente, presente no líquido sinovial — o líquido que preenche o espaço articular e banha a cartilagem —, responsável por boa parte da viscosidade desse líquido: a textura espessa, quase gelatinosa, que ajuda a amortecer o atrito entre os ossos a cada movimento. A técnica é usada principalmente no tratamento da artrose (também chamada de osteoartrite), condição em que a cartilagem se desgasta progressivamente e o líquido sinovial tende a perder parte dessa viscosidade natural ao longo do tempo.

A lógica original por trás da técnica, desde que ela surgiu, é fácil de entender: se a artrose reduz a viscosidade do líquido articular, repor ácido hialurônico devolveria parte dessa lubrificação perdida, aliviando o atrito entre as superfícies articulares e, por consequência, a dor. Essa é a explicação que ainda hoje dá nome à técnica e que a maioria dos pacientes ouve na primeira conversa sobre o assunto.

Hoje, porém, entende-se que o efeito observado nos estudos provavelmente não se limita a uma ação mecânica de lubrificação: parte dele parece envolver também uma modulação da inflamação local e da sensibilidade dolorosa da própria articulação. Ou seja, "lubrificação" é uma simplificação útil da ideia original — mais fácil de visualizar —, não a explicação completa de como a técnica pode funcionar.

Você provavelmente já ouviu falar da viscossuplementação como uma alternativa antes da cirurgia, indicada quando o tratamento inicial da artrose não trouxe alívio suficiente. Essa colocação está correta, mas incompleta — como você vai ver a seguir, o real valor da técnica depende muito de qual articulação está em jogo e de qual fase da artrose você está enfrentando.

Como se diferencia do PRP, dos ortobiológicos e da proloterapia

Dentro da medicina regenerativa aplicada à dor articular, é comum confundir a viscossuplementação com outras técnicas de infiltração — as três aparecem, com frequência, lado a lado sob o mesmo guarda-chuva, o que ajuda a explicar por que a confusão é tão comum na consulta e nas buscas na internet. Vale diferenciar cada uma antes de seguir adiante. O ácido hialurônico usado na viscossuplementação é um produto industrializado e padronizado, aplicado diretamente na articulação. Já os ortobiológicos, como o PRP (plasma rico em plaquetas) e o BMA (aspirado de medula óssea), são preparados obtidos do próprio sangue ou da própria medula óssea do paciente. A proloterapia, por sua vez, usa uma solução de dextrose — um tipo de açúcar em concentração maior que a do sangue — para tentar estimular uma resposta reparativa local em tendões, ligamentos e articulações.

São, portanto, três materiais diferentes, partindo de lógicas biológicas diferentes: lubrificação e modulação da inflamação, no caso do ácido hialurônico; estímulo biológico a partir de células do próprio paciente, no caso dos ortobiológicos; e um estímulo inflamatório controlado, no caso da proloterapia. Ainda assim, as indicações de cada uma se sobrepõem em parte — a artrose, por exemplo, aparece como possível cenário de uso nas três técnicas, cada uma com o próprio conjunto de evidência científica, que precisa ser avaliado separadamente.

Por isso, na consulta, a pergunta não é qual dessas três técnicas é "a melhor" de forma genérica, mas qual delas tem evidência mais consistente para a sua condição específica, na sua articulação e no seu estágio da doença — e essa resposta, como você vai ver ao longo deste texto, muda bastante conforme o cenário.

Quadro comparativo das opções injetáveis: PRP e BMA, gordura microfragmentada, proloterapia, viscossuplementação e ondas de choque
Um mapa das opções: material aplicado, origem e os cenários em que a evidência de cada técnica é mais consistente. A viscossuplementação é a única que usa um produto industrializado padronizado, e não material do próprio paciente.

O que a evidência mostra (e onde ela ainda é inconsistente)

Antes de entrar nos pontos de divergência, vale afirmar o que já é razoavelmente consensual: o ácido hialurônico é uma opção estabelecida dentro do tratamento conservador da artrose, com décadas de uso clínico e um perfil de segurança bem estabelecido. Os melhores resultados aparecem de forma mais consistente na artrose leve a moderada, cenário em que a indicação da técnica tende a ser mais direta.

Dito isso, a literatura não é uniforme. Meta-análises em rede (que comparam várias opções de tratamento entre si) colocam o ácido hialurônico acima do placebo e à frente do corticoide em seguimentos de 6 meses ou mais (Jawanda et al., 2024, Arthroscopy; Han et al., 2020, Arthroscopy), enquanto revisões restritas aos maiores ensaios controlados por placebo encontraram um benefício pequeno, abaixo do limiar considerado clinicamente importante (Pereira et al., 2022, The BMJ; Rutjes et al., 2012, Annals of Internal Medicine). Diante dessa heterogeneidade, as diretrizes internacionais também divergem: a AAOS e o NICE são contrárias ao uso rotineiro, enquanto a ESCEO e a OARSI o endossam de forma condicional (Glinkowski et al., 2025, Journal of Clinical Medicine).

Na prática, a leitura que eu faço disso não é "funciona ou não funciona", e sim para quem faz sentido. Onde a evidência é mais consistente — artrose leve a moderada —, a indicação costuma ser mais direta; onde ela ainda é inconsistente, a decisão passa a ser individual, considerando o estágio da artrose, a articulação, os tratamentos já realizados e as preferências de quem vai receber a aplicação.

Quadro comparando as diretrizes internacionais sobre viscossuplementação e o que a evidência mostra no joelho, na artrose inicial e no tornozelo
A divergência em um quadro: AAOS e NICE são contrários ao uso rotineiro, enquanto ESCEO e OARSI endossam de forma condicional. No joelho o resultado varia conforme o desenho do estudo; na artrose inicial os resultados são mais consistentes; no tornozelo, os estudos disponíveis não mostraram superioridade sobre a solução salina.

Onde a evidência é mais favorável: artrose inicial a moderada do joelho

Apesar da divergência descrita acima, um padrão se repete entre os estudos: existe um perfil de paciente que tende a responder melhor, e ele é razoavelmente bem definido. Uma revisão sistemática de 71 ensaios clínicos, com 10.590 pacientes com artrose de joelho (Migliorini et al., 2025, Sports Medicine), descreve esse perfil: pacientes em estágio inicial da artrose — sobretudo mulheres mais velhas — podem apresentar melhora significativa a longo prazo.

O mesmo estudo chama atenção para um detalhe prático que vale saber antes de decidir: uma piora inicial dos sintomas — mais dor ou inchaço nos primeiros dias após a aplicação — é comum e esperada, e não um sinal de que o tratamento falhou. Saber disso de antemão evita uma expectativa equivocada logo na primeira semana.

Essa leitura combina com o que já foi citado sobre a divergência entre diretrizes: mesmo a revisão guarda-chuva que evidenciou o desacordo entre sociedades médicas (Glinkowski et al., 2025, Journal of Clinical Medicine) descreve eficácia moderada em alívio de dor e função justamente nessa faixa — artrose inicial a moderada —, o que ajuda a entender por que a indicação, quando considerada, tende a ser mais forte no joelho e nesse estágio específico da doença do que em quadros mais avançados.

Tornozelo e pé: o que os estudos mostram

No tornozelo, a evidência disponível é menos consistente do que no joelho: os estudos publicados não demonstraram superioridade do ácido hialurônico sobre a injeção de solução salina (DeGroot et al., 2012, The Journal of Bone and Joint Surgery; Paget et al., 2023, Clinical Orthopaedics and Related Research), embora também não tenham registrado eventos adversos graves. Vale o contexto: o tornozelo é uma articulação com menos estudos de boa qualidade do que o joelho, e ausência de superioridade demonstrada não é o mesmo que prova de ineficácia.

Por isso, no pé e no tornozelo, a viscossuplementação não é o primeiro recurso — o tratamento de base da artrose do tornozelo e do pé segue sendo ajuste de carga, calçado, reabilitação e as demais opções. Quando considerada, ela entra como decisão individual, discutida caso a caso, com expectativa alinhada.

Ombro, quadril e outras articulações

O mesmo princípio de honestidade vale para as demais articulações: a grande maioria da evidência científica sobre viscossuplementação — praticamente tudo o que foi citado até aqui — vem de estudos com o joelho. Isso não significa que a técnica seja restrita a ele, mas significa que, em outras articulações, a decisão se apoia em um volume bem menor de evidência direta.

No ombro, no quadril e na base do polegar — a articulação acometida na rizartrose — o uso existe e é considerado caso a caso, dentro da avaliação individual de cada paciente. No quadril, em particular, a aplicação guiada por imagem — geralmente por ultrassom — é especialmente relevante, já que se trata de uma articulação mais profunda, na qual a precisão da agulha sem esse auxílio fica comprometida.

Um ponto vale reforço: a ausência de grande volume de evidência específica para ombro e quadril não significa evidência contrária — significa apenas que a certeza científica disponível é menor do que a que existe para o joelho. Essa distinção importa para calibrar a expectativa, sem descartar a ferramenta por falta de estudo.

Por isso, faz mais sentido enquadrar a viscossuplementação como uma tecnologia disponível para dor articular crônica em pacientes selecionados — uma ferramenta a mais dentro do arsenal de medicina regenerativa — do que prometer um resultado específico para cada articulação isoladamente. A avaliação individual, mais uma vez, é o que define se ela faz sentido para o seu caso.

Segurança: o ponto a favor

Se a eficácia da viscossuplementação divide opiniões, a segurança é um ponto em que a técnica se destaca de forma mais consistente. Uma revisão sobre condrotoxicidade — o potencial de uma substância causar dano à cartilagem — de diferentes injeções intra-articulares (Pirri et al., 2024, International Journal of Molecular Sciences) descreve o ácido hialurônico com bom perfil de segurança sobre esse tecido, diferente do que se observa com o uso repetido de corticoides (com exceção da triancinolona) e de anestésicos locais, que apresentaram perfis de segurança insuficientes para uso casual sobre a cartilagem. O mesmo estudo aponta que o ácido hialurônico parece até reduzir os riscos de compostos associados a ele quando aplicados juntos.

Vale, porém, lembrar do contraponto já citado: a mesma revisão sistemática que questionou a relevância clínica do benefício da viscossuplementação (Pereira et al., 2022, The BMJ) também registrou um risco estatisticamente maior de eventos adversos graves nos ensaios grandes controlados por placebo. Não é uma contradição — é mais um motivo pelo qual a avaliação precisa ser sempre individual, considerando o seu histórico de saúde e a articulação tratada, e não uma decisão automática baseada apenas no bom perfil de segurança sobre a cartilagem.

Os efeitos locais mais comuns são dor e inchaço transitório no ponto da aplicação, que tendem a diminuir nos dias seguintes. Já existem situações que pedem cautela redobrada ou contraindicam o procedimento: infecção ativa no local da aplicação ou na pele ao redor, alergia conhecida a algum componente do produto, e avaliação individual obrigatória em gestantes e em pacientes com determinadas condições clínicas específicas.

Quantas aplicações e qual formulação

Outra dúvida frequente na consulta é sobre o número de aplicações e o tipo de formulação usada. Uma revisão sistemática (McElheny et al., 2019, Sports Health) não encontrou diferença consistente de resultado entre formulações de injeção única e de múltiplas injeções — e, dentro dos esquemas de múltiplas aplicações, protocolos de 5 injeções não se mostraram superiores aos de apenas 3.

As sessões, quando em esquema de múltiplas aplicações, costumam ser espaçadas por algumas semanas entre uma e outra, com o número exato definido conforme a resposta observada ao tratamento — e não por um protocolo fixo aplicado da mesma forma a qualquer pessoa.

Na prática, essa é uma boa notícia: menos aplicações costumam significar menos incômodo ao longo do tratamento e menor custo total, sem abrir mão de um resultado comparável. A escolha entre as formulações disponíveis é uma decisão técnica e faz parte da avaliação individual — o que importa saber, na prática, é que mais aplicações não é sinônimo de mais eficácia.

Como é o procedimento

A aplicação é feita em consultório, com técnica asséptica — os cuidados de limpeza e esterilidade que reduzem o risco de infecção durante o procedimento — e costuma ser rápida, sem necessidade de internação. Em articulações mais profundas ou de acesso mais difícil, como o quadril, o ultrassom é usado para guiar a agulha com precisão até o espaço articular, o que aumenta a segurança e a exatidão da aplicação.

É esperado algum desconforto local nas primeiras 24 a 48 horas depois da aplicação, o que costuma ser temporário. O retorno às atividades habituais costuma ser rápido, com orientação individual sobre o ritmo de retomada — não é necessário um afastamento prolongado do trabalho ou da rotina para a maioria dos pacientes.

Antes da aplicação, a avaliação inclui conversar sobre expectativas realistas para a sua condição específica e sobre eventuais ajustes em medicações que possam interferir no procedimento. Depois, o acompanhamento em consulta ajuda a monitorar a resposta ao tratamento e a decidir, junto com você, os próximos passos.

Quando eu considero (e quando não considero)

Depois de tudo o que foi descrito até aqui, talvez a pergunta mais direta seja: quando, na prática, a viscossuplementação entra em consideração? Como regra geral, onde a evidência é mais consistente — a artrose inicial a moderada —, a indicação é mais direta; nas demais situações, a decisão é compartilhada, caso a caso. Eu considero em casos de artrose inicial a moderada do joelho, com dor persistente mesmo depois de um tratamento de base bem conduzido — controle de peso, fortalecimento muscular, ajuste de atividade. Considero também em pacientes que querem evitar ou espaçar o uso de corticoide, dado o perfil de segurança mais favorável do ácido hialurônico sobre a cartilagem. E considero como parte de um plano mais amplo, que inclui reabilitação — nunca como o único elemento do tratamento.

Por outro lado, não considero a viscossuplementação como primeira medida isolada diante de uma dor articular recente, nem como promessa de reconstrução da cartilagem já perdida — não é isso que a técnica faz. Também não considero em quadros de artrose muito avançada esperando um resultado parecido com o que a evidência mostra para a artrose inicial: são cenários biologicamente diferentes, e tratá-los como equivalentes seria enganoso. E no tornozelo, mantenho a ressalva que a própria evidência impõe — não é a primeira escolha ali, e quando entra em discussão, é sempre com a expectativa alinhada desde o início sobre o que os estudos efetivamente mostram para essa articulação específica.

Atendimento em Fortaleza e Eusébio

O acompanhamento é feito pelo Dr. Caio Fábio, ortopedista, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590, com pós-graduação em Intervenção em Dor e Medicina Regenerativa pelo Interpain. Quando indicada, a aplicação de viscossuplementação é guiada por ultrassom no consultório, o que aumenta a precisão em qualquer uma das articulações discutidas neste texto, do joelho ao quadril.

Como a viscossuplementação raramente é a única medida do seu tratamento, a reabilitação é integrada ao cuidado, em parceria com a Dra. Lucymilla Guimaro. O atendimento acontece em Fortaleza (bairro Meireles) e em Eusébio (CE), com estacionamento no local nas duas unidades, além da opção de teleconsulta para pacientes de outras cidades, estados ou países. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.

Perguntas frequentes

Viscossuplementação regenera a cartilagem?

Não há evidência de que a viscossuplementação reconstrua uma cartilagem já perdida. O objetivo do tratamento é atuar sobre o sintoma e a função da articulação — aliviar a dor e melhorar o movimento —, não reverter o desgaste estrutural já instalado.

Quantas aplicações são necessárias?

Uma revisão sistemática (McElheny et al., 2019, Sports Health) não encontrou diferença consistente entre esquemas de aplicação única e de múltiplas aplicações, e protocolos de 5 injeções não superaram os de 3. A escolha é sempre individual, feita junto com o médico.

Ácido hialurônico ou PRP: qual é melhor?

As meta-análises em rede disponíveis tendem a ranquear o PRP à frente na artrose de joelho, mas as diferenças entre as opções costumam ser modestas. A decisão entre elas é individual e considera a condição, o estágio da artrose e a resposta a tratamentos já tentados.

Serve para artrose do tornozelo?

Os estudos disponíveis não mostraram superioridade da viscossuplementação sobre placebo no tornozelo — por isso, nessa articulação, ela não é a primeira escolha do arsenal terapêutico e é considerada apenas em situações específicas.

Dói? Posso trabalhar depois?

É esperado algum desconforto local nas primeiras 24 a 48 horas depois da aplicação. O retorno às atividades habituais costuma ser rápido, com orientação individual sobre o ritmo de retomada.

Plano de saúde cobre?

Varia conforme o plano de saúde, a articulação tratada e a indicação clínica — não há uma resposta única válida para todos os casos. O ideal é verificar diretamente com a operadora do seu plano.

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