Neuropatia diabética nos pés: formigamento, queimação e o que fazer
Dr. Caio Fábio — CRM-CE 12791 · RQE 8590Resposta rápida
A neuropatia diabética é a perda gradual de sensibilidade nos pés causada pelo diabetes, que costuma começar com formigamento, queimação noturna e dormência muito antes de qualquer ferida aparecer. Reconhecer esses sintomas cedo, junto com o controle glicêmico e o acompanhamento do pé, é o que separa quem consegue agir a tempo de quem só percebe o problema quando a sensibilidade protetora já se perdeu.

Neuropatia diabética: a resposta rápida
Você sente formigamento nos pés que não passa, uma queimação na sola do pé que piora à noite, ou uma dormência nos pés que faz até o chão parecer diferente sob os dedos — e alguém já comentou que isso pode ter relação com o diabetes. Faz sentido: esse conjunto de sintomas costuma ser o primeiro sinal da neuropatia diabética, a complicação que afeta os nervos das pernas e dos pés em quem convive com diabetes há algum tempo. A neuropatia diabética não é um evento único, é um processo gradual — e é exatamente por isso que reconhecer os sintomas cedo, antes que a sensibilidade se perca por completo, muda o que vem depois.
Este texto trata do estágio que antecede a ferida no pé diabético: os sintomas sensitivos que avisam que o nervo já está sendo afetado, os sinais que pedem avaliação sem demora, como é feita a avaliação clínica e o que reduz o risco de a neuropatia diabética evoluir para uma complicação mais séria. Se você já convive com uma ferida que não cicatriza, o texto sobre úlceras e pé diabético trata especificamente dessa etapa seguinte.
Por que o diabetes afeta primeiro os nervos dos pés
Os nervos mais longos do corpo são os que percorrem da coluna até a ponta dos dedos do pé — e são justamente esses os mais expostos ao efeito do açúcar elevado no sangue mantido por muito tempo. Uma revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers (Feldman et al., 2019) descreve esse quadro como polineuropatia diabética simétrica distal: uma perda de função sensitiva que começa nas extremidades mais distantes do corpo — os pés — e que, com o tempo, pode avançar em direção às pernas, quase sempre dos dois lados ao mesmo tempo. É por isso que a neuropatia diabética costuma aparecer primeiro na ponta dos dedos e na sola do pé, avançando de forma simétrica, como se uma meia invisível fosse subindo aos poucos.
A mesma revisão traz um número que ajuda a dimensionar o problema: ao longo do tempo, pelo menos metade das pessoas com diabetes desenvolve neuropatia diabética (Feldman et al., 2019). É um número alto o bastante para justificar atenção, mas — e isso importa dizer com a mesma clareza — não é um destino fixo: o controle glicêmico, conduzido junto com o clínico ou o endocrinologista, interrompe de forma efetiva a progressão da neuropatia em quem tem diabetes tipo 1, e tem um efeito mais modesto, ainda que real, em quem tem diabetes tipo 2 (Feldman et al., 2019). Se o seu pai ou a sua mãe tem diabetes há muitos anos, esse é um dos motivos pelos quais o controle da glicemia continua importando mesmo depois que os primeiros sintomas nos pés já apareceram.
Os sintomas que valem atenção
O jeito mais comum de a neuropatia diabética se anunciar é sensitivo: formigamento nos pés, queimação na sola do pé que costuma piorar à noite, a ponto de atrapalhar o sono, dormência nos pés e a sensação de estar com uma meia ou uma luva vestida nos pés, mesmo descalço. Algumas pessoas descrevem ainda um desconforto exagerado ao simples toque do lençol, ao mesmo tempo em que outras áreas do pé sentem cada vez menos. Esse contraste — dor e queimação em alguns pontos, dormência progressiva em outros — não é incoerência do quadro: é como a neuropatia diabética costuma se manifestar num primeiro momento.
O padrão costuma ser simétrico, nos dois pés ao mesmo tempo, ainda que um lado possa incomodar mais do que o outro num dado momento. O comportamento noturno também chama atenção: para boa parte das pessoas, a queimação piora exatamente na hora de dormir, um padrão discutido nas diretrizes sobre o tema (Pop-Busui et al., 2017) e que, por si só, já é motivo suficiente para trazer a queixa à consulta, mesmo quando o sintoma ainda parece leve durante o dia.
Quando é mais do que desconforto: os sinais de alerta
Existe uma diferença importante entre sentir os sintomas descritos acima e já ter perdido, de fato, a sensibilidade protetora — a capacidade de o pé sentir uma pedrinha dentro do sapato, o atrito de uma costura ou o calor excessivo da água do banho. Essa perda costuma acontecer de forma silenciosa: é possível deixar de sentir a queimação e a dormência que incomodavam antes e interpretar isso como melhora, quando na verdade o nervo perdeu sensibilidade a ponto de nem mesmo os sintomas incômodos ainda avisarem. Esse é um dos momentos mais importantes de atenção na neuropatia diabética — não quando dói, mas quando o desconforto para de aparecer sem motivo aparente —, porque é a partir daí que pequenas lesões deixam de ser sentidas e podem evoluir sem serem percebidas, o caminho que o texto sobre úlceras e pé diabético descreve em detalhe.
Existe ainda um sinal específico, menos conhecido e mais sério, que merece menção à parte: o pé que fica quente, inchado e avermelhado, muitas vezes sem uma dor proporcional ao que se vê — às vezes depois de um trauma tão pequeno que nem chega a ser lembrado. Uma revisão sobre o tema descreve esse quadro como neuroartropatia de Charcot, uma condição que costuma acometer o pé em quem já tem neuropatia significativa e que segue sendo mal reconhecida com frequência — muitos pacientes só recebem o diagnóstico correto quando a deformidade óssea já está estabelecida, em parte porque o quadro é confundido com uma infecção ou uma torção comuns (Rajbhandari et al., 2002). Diante desse padrão — pé quente, inchado e vermelho, num pé com neuropatia conhecida —, a avaliação rápida com um especialista é o caminho mais seguro, mesmo sem uma dor que "combine" com a gravidade do que está sendo visto.
Como é feita a avaliação
A boa notícia é que identificar a neuropatia diabética e a perda de sensibilidade protetora não depende de exames caros ou demorados — o exame clínico, feito em consultório, já responde à maior parte das perguntas. O teste mais usado no mundo todo é o do monofilamento de 10 gramas (Semmes-Weinstein): um fio de nylon calibrado é encostado em alguns pontos da sola do pé até dobrar levemente, e você diz se sentiu o toque, de olhos fechados. É um teste simples, indolor, e considerado a ferramenta mais prática para o rastreamento anual da perda de sensibilidade protetora em quem tem diabetes (Ulbrecht et al., 2004). Um estudo que avaliou a confiabilidade desse exame, repetindo-o em sessões diferentes e com examinadores diferentes, confirmou que ele é reprodutível o suficiente para acompanhar mudanças reais na sensibilidade ao longo do tempo (Young et al., 2011).
Ao lado do monofilamento, o médico costuma somar outros testes simples — o diapasão, que avalia a sensibilidade à vibração, o exame dos reflexos do tornozelo e a avaliação da sensibilidade à picada leve —, porque combinar mais de um teste aumenta a confiança no resultado, em vez de depender de um único sinal isolado. A avaliação completa também considera a história do controle glicêmico ao longo dos anos e o exame da circulação do pé, já que a neuropatia raramente aparece isolada — costuma vir acompanhada de outros fatores que também pesam no risco do pé diabético.

O que reduz o risco de a neuropatia evoluir
Reduzir o risco de a neuropatia diabética evoluir para uma complicação mais séria depende de um conjunto pequeno de medidas, sustentadas por evidência consistente e nada exóticas: manter o controle glicêmico junto com o clínico ou o endocrinologista que acompanha o seu diabetes é a base de tudo — é a medida com o efeito mais consistente sobre a progressão do dano ao nervo (Feldman et al., 2019). Ao lado disso, a diretriz do International Working Group on the Diabetic Foot sobre prevenção (Bus et al., 2023) recomenda a inspeção diária dos pés, incluindo a sola e o espaço entre os dedos, o uso de calçado adequado — sem andar descalço, nem mesmo dentro de casa — e o exame periódico da sensibilidade protetora, com intervalo menor conforme o risco aumenta.
É aqui que entra o papel do ortopedista especializado em pé: acompanhar a evolução da sensibilidade e da forma do pé ao longo dos anos, tratar cedo qualquer lesão pré-ulcerativa — um calo que não deveria estar ali, uma unha encravada que em outra pessoa seria só um incômodo —, orientar sobre calçado e identificar precocemente sinais de deformidade que possam concentrar pressão em pontos específicos do pé. Um compêndio de prática clínica da American Diabetes Association (Boulton et al., 2018) reforça esse acompanhamento estruturado como parte do cuidado desde a fase da neuropatia, não como algo reservado só para depois que uma ferida aparece — reconhecer a neuropatia cedo é, na prática, a oportunidade de evitar chegar a esse ponto.

O tratamento da dor neuropática
Quando o sintoma predominante é a dor — a queimação, o choque, a sensação de agulhada —, existe tratamento medicamentoso específico para reduzir esse desconforto, com opções descritas na diretriz da American Diabetes Association sobre neuropatia diabética (Pop-Busui et al., 2017). Esse tratamento é conduzido em conjunto com o clínico ou o endocrinologista que acompanha o diabetes, porque a escolha da medicação e os ajustes ao longo do tempo dependem de fatores individuais — outras condições de saúde, outros medicamentos em uso, resposta ao tratamento — que precisam ser avaliados em consulta, e não é o objetivo deste texto detalhar. O que vale reter é que a dor da neuropatia diabética não precisa ser encarada como algo para simplesmente suportar: existe manejo para ela, e vale trazer o sintoma para a consulta em vez de conviver calado com uma queimação que atrapalha o sono há meses.
Para quem cuida
Boa parte deste texto vale também para quem acompanha de perto uma pessoa com diabetes — cônjuge, filho, filha. Se o seu pai ou a sua mãe tem diabetes e você notou que ele anda arrastando um pouco os pés, que já não sente mais quando pisa em algo, ou que comentou uma vez sobre formigamento e nunca mais tocou no assunto, vale perguntar de novo e com atenção: a neuropatia diabética costuma avançar em silêncio, e quem convive todos os dias percebe mudanças sutis — no jeito de andar, na postura, num pé um pouco mais quente do que o outro — antes mesmo que a própria pessoa dê importância a elas. Ajudar na inspeção diária dos pés, especialmente da sola e do espaço entre os dedos, é uma das formas mais simples de apoiar alguém nessa fase, e vale mais do que parece.
Atendimento em Fortaleza e Eusébio
O acompanhamento da neuropatia diabética inclui a avaliação da sensibilidade protetora com monofilamento e diapasão, o exame da forma e do apoio do pé, a investigação de sinais de alerta como a neuroartropatia de Charcot, e a orientação sobre calçado e cuidado diário — em conjunto com o clínico ou o endocrinologista responsável pelo controle glicêmico. Esse acompanhamento se soma ao que já é descrito no texto sobre úlceras e pé diabético: cuidar bem da neuropatia é, na prática, prevenir a úlcera.
O atendimento é feito pelo Dr. Caio Fábio, ortopedista especializado em pé e tornozelo, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590, na unidade de Fortaleza (bairro Meireles) e na unidade de Eusébio, com estacionamento no local nas duas unidades. Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para avaliação inicial e orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.
Referências científicas (7)
- Feldman EL et al. (2019). Diabetic neuropathy. Nature Reviews Disease Primers. DOI 10.1038/s41572-019-0097-9
- Pop-Busui R et al. (2017). Diabetic Neuropathy: A Position Statement by the American Diabetes Association. Diabetes Care. DOI 10.2337/dc16-2042
- Rajbhandari SM et al. (2002). Charcot neuroarthropathy in diabetes mellitus. Diabetologia. DOI 10.1007/s00125-002-0885-7
- Ulbrecht JS et al. (2004). Foot problems in diabetes: an overview. Clinical Infectious Diseases. DOI 10.1086/383266
- Young D et al. (2011). Reliability and responsiveness of an 18 site, 10-g monofilament examination for assessment of protective foot sensation. Journal of Geriatric Physical Therapy. DOI 10.1519/JPT.0b013e31820aabe5
- Bus SA et al. (2023). Guidelines on the prevention of foot ulcers in persons with diabetes (IWGDF 2023 update). Diabetes/Metabolism Research and Reviews. DOI 10.1002/dmrr.3651
- Boulton AJM et al. (2018). Diagnosis and Management of Diabetic Foot Complications (ADA Clinical Compendia). American Diabetes Association. PMID 30958663
Referências verificadas em bases indexadas (PubMed) antes da publicação. O texto resume os achados de forma acessível; a leitura dos estudos originais é recomendada para o aprofundamento técnico.
Perguntas frequentes
Formigamento nos pés é sempre diabetes?
Não — formigamento nos pés pode ter várias causas, incluindo problemas na coluna, deficiência de vitaminas e outras condições. Mas em quem tem diabetes, esse sintoma merece atenção específica, porque costuma ser o primeiro sinal da neuropatia diabética, e vale mencionar na consulta.
Neuropatia diabética tem cura?
O dano já causado ao nervo não costuma ser revertido por completo, mas o controle glicêmico interrompe de forma efetiva a progressão em diabetes tipo 1, e tem um efeito mais modesto, ainda que real, em diabetes tipo 2. Por isso, reconhecer o quadro cedo e manter o acompanhamento importa mesmo depois que os primeiros sintomas aparecem.
Qual médico procurar?
O controle glicêmico é acompanhado pelo clínico ou pelo endocrinologista, e o cuidado específico do pé — avaliação da sensibilidade, sinais de deformidade, calos e unhas — costuma ficar com o ortopedista especializado em pé e tornozelo. Os dois acompanhamentos se complementam.
O que é o teste do monofilamento?
É um exame simples e indolor: um fio de nylon calibrado (10 gramas) é encostado em alguns pontos da sola do pé até dobrar levemente, e a pessoa diz se sentiu o toque, de olhos fechados. É o teste mais usado no mundo para rastrear a perda de sensibilidade protetora em quem tem diabetes.
Por que não sinto dor nas feridas do pé?
Porque a neuropatia diabética, quando avança, reduz a sensibilidade protetora — a capacidade de sentir uma pedrinha, um atrito ou uma ferida se formando. A ausência de dor não significa que está tudo bem; muitas vezes significa o contrário, e é por isso que a inspeção visual diária substitui a dor como sistema de alerta.
Como cuidar dos pés de quem tem diabetes?
Inspecionar os pés todos os dias, incluindo a sola e entre os dedos, usar calçado adequado, nunca andar descalço, tratar cedo qualquer calo ou lesão e manter o exame periódico da sensibilidade com o médico. Quem convive com a pessoa também tem um papel importante nessa rotina.
É normal a dor piorar à noite e melhorar de dia?
É um padrão comum na neuropatia diabética — a queimação costuma piorar na hora de dormir, o que também atrapalha o sono. Esse padrão, por si só, já é um motivo válido para levar o sintoma à consulta, mesmo que incomode pouco durante o dia.
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