Lesões de Pé e Tornozelo

Hálux rígido: artrose do dedão do pé — sintomas e tratamento

27 de agosto de 20267 min de leitura
Dr. Caio Fábio, ortopedistaDr. Caio Fábio CRM-CE 12791 · RQE 8590

Resposta rápida

O hálux rígido é a artrose da primeira articulação metatarsofalângica, a articulação da base do dedão, que progressivamente trava a dorsiflexão do dedão e dói no impulso do passo. Diferente do joanete, não costuma haver desvio lateral do dedão — o sinal central é a rigidez, e o tratamento começa sempre pelo caminho conservador antes de considerar cirurgia.

Pé em apoio no impulso do passo, movimento que exige dobrar o dedão e costuma doer no hálux rígido — imagem ilustrativa

Hálux rígido: a resposta rápida

Você sente uma dor na base do dedão do pé que piora justamente no momento de empurrar o corpo para a frente ao caminhar ou correr — a fase do passo em que o dedão precisa dobrar para cima, chamada dorsiflexão. Além da dor, o dedão parece cada vez mais "duro", resistente a dobrar, e é comum notar um calo ósseo endurecido no topo da articulação, perto da unha. Se esse quadro é familiar, a hipótese mais provável tem nome: hálux rígido, a artrose da primeira articulação metatarsofalângica — a articulação da base do dedão — e a condição artrítica mais comum do pé (Sidon et al., 2019).

Vale diferenciar já de início: hálux rígido não é sinônimo de joanete. O joanete (hálux valgo) é um desvio lateral progressivo do dedão em direção aos outros dedos; o hálux rígido é uma artrose que trava o movimento da articulação, geralmente sem esse desvio. Este texto explica o que é o hálux rígido, como diferenciá-lo do joanete, os sintomas, os graus da doença, o que a evidência mostra sobre o tratamento conservador e, em linhas gerais, quando e como a cirurgia entra — sempre a partir de fontes verificadas.

O que é o hálux rígido

A primeira articulação metatarsofalângica é onde a cabeça do primeiro metatarso encontra a base da primeira falange do dedão — a articulação que permite ao dedão dobrar para cima a cada passo, no momento do impulso. No hálux rígido, essa articulação sofre um desgaste progressivo da cartilagem, e o corpo reage formando osteófitos (saliências ósseas) principalmente no topo da articulação, o que restringe cada vez mais a dorsiflexão do dedão (Lam et al., 2017; Coughlin & Shurnas, 2003).

A condição é mais comum do que parece: em uma coorte japonesa com pessoas acima de 50 anos, a prevalência radiográfica de hálux rígido foi de 26,7%, com 8,1% dos participantes apresentando a forma sintomática, com dor. Nesse mesmo estudo, artrose no joelho, crises de gota e a presença de hálux valgo (joanete) apareceram como fatores associados a maior risco de hálux rígido (Senga et al., 2021) — o que mostra que as duas condições podem, sim, coexistir na mesma pessoa, mesmo sendo diagnósticos distintos.

Hálux rígido x joanete: diferenças que importam

A confusão entre hálux rígido e joanete é comum, porque as duas condições afetam a mesma articulação — a base do dedão — e podem, inclusive, ocorrer juntas na mesma pessoa (Senga et al., 2021). Mas o mecanismo e o sinal mais característico de cada uma são diferentes. No joanete, o dedão se desvia lateralmente em direção aos outros dedos, e a saliência óssea aparece na lateral, na base do primeiro metatarso. No hálux rígido, o dedão tende a manter o alinhamento, sem esse desvio lateral, mas perde a capacidade de dobrar para cima — a rigidez, e não o desvio, é o sinal central —, e a saliência óssea (o osteófito) fica no topo da articulação, não na lateral (Lam et al., 2017; Coughlin & Shurnas, 2003).

Outra condição da mesma região que vale diferenciar é a sesamoidite: ali a dor fica embaixo do dedão, sob a cabeça do primeiro metatarso, e não na própria articulação nem no seu topo. Diante de dor na base do dedão, portanto, localizar exatamente onde ela dói — lateral, topo ou embaixo — e observar se há ou não desvio visível já ajuda a apontar para o diagnóstico mais provável, que a avaliação clínica confirma.

Sintomas: como reconhecer a dor e a rigidez

O sintoma central do hálux rígido é a dor na articulação da base do dedão, que piora especificamente no impulso do passo — o momento em que o dedão precisa dobrar para cima para o pé se despregar do chão — e também ao ficar na ponta dos pés ou subir escadas. Diferente do joanete, a dor não costuma estar associada a vermelhidão sobre uma saliência lateral, mas sim a um inchaço mais discreto sobre o topo da articulação, onde o osteófito se forma (Lam et al., 2017).

A rigidez é progressiva: no início, o dedão ainda dobra, só que dói; com o avanço da artrose, a amplitude de movimento vai diminuindo de forma real, até que, em fases mais avançadas, o dedão praticamente não dobra mais. O calçado também costuma incomodar de forma característica — sapatos flexíveis, que exigem mais dobra do dedão a cada passo, tendem a piorar a dor, enquanto calçados de sola mais rígida costumam aliviar (Coughlin & Shurnas, 2003; Lam et al., 2017).

Graus: a classificação de Coughlin & Shurnas

Para organizar a avaliação e orientar o tratamento, Coughlin e Shurnas propuseram um sistema de graus, de 0 a 4, que combina achados clínicos — sobretudo a amplitude de movimento da articulação — com achados radiográficos, como o tamanho do osteófito e o espaço articular restante (Coughlin & Shurnas, 2003). Quanto maior o grau, maior a perda de movimento e o desgaste da cartilagem.

Esse sistema de graus não é só uma curiosidade acadêmica: no estudo original, que acompanhou pacientes operados por até dezenove anos, a queilectomia (remoção do osteófito, preservando a articulação) teve sucesso previsível nos graus 1 e 2, e em casos selecionados de grau 3; já o grau 4, ou o grau 3 com menos de 50% da cartilagem da cabeça do metatarso preservada, respondeu melhor à artrodese, a fusão da articulação (Coughlin & Shurnas, 2003). É essa correlação entre grau e resposta ao tratamento que orienta boa parte da decisão cirúrgica hoje.

Tratamento conservador: a primeira linha

O tratamento conservador deve ser sempre a primeira tentativa em todo paciente com hálux rígido, independentemente do grau (Lam et al., 2017). As medidas mais citadas na literatura incluem a modificação do calçado — sola rígida ou tipo rocker, que facilita o rolamento do pé sem exigir tanta dorsiflexão do dedão —, o ajuste da atividade física que provoca a dor, anti-inflamatórios não esteroides e a fisioterapia (Lam et al., 2017). Uma palmilha ou órtese com reforço rígido sob o hálux segue a mesma lógica: reduzir a exigência de movimento sobre a articulação já desgastada.

Em casos selecionados, quando as medidas iniciais não bastam, a infiltração intra-articular é uma opção descrita na literatura como parte do arsenal conservador, antes de considerar qualquer procedimento cirúrgico (Lam et al., 2017). É importante manter uma expectativa honesta: o tratamento conservador não reverte o desgaste da cartilagem já instalado, mas costuma controlar bem os sintomas por longos períodos, principalmente nos graus iniciais — o que muitas vezes adia, e em alguns casos evita, a necessidade de cirurgia.

Cirurgia: quando entra e as opções

A cirurgia é considerada quando a dor e a limitação de movimento persistem apesar do tratamento conservador bem conduzido. As técnicas cirúrgicas se dividem em dois grandes grupos: as que preservam a articulação, como a queilectomia — às vezes associada à osteotomia de Moberg na falange —, indicadas com bons resultados nos graus iniciais; e as opções para os graus mais avançados: a artrodese, a fusão da articulação, técnica consolidada com bons resultados de dor e função, e a artroplastia — a prótese —, alternativa mais moderna que preserva o movimento da articulação; a escolha entre elas depende da indicação individual de cada caso (Lam et al., 2017; Park et al., 2019). Dados de longo prazo mostram que a queilectomia, quando bem indicada, tem taxa de revisão baixa e resultados favoráveis sustentados por anos (Sidon et al., 2019); um registro nacional sueco mostra que, na prática, a queilectomia e a artrodese seguem sendo as técnicas mais usadas — 41,9% e 34,3% dos casos operados, respectivamente (Cöster et al., 2020).

A artrodese trava permanentemente a articulação da base do dedão — não o pé inteiro nem as demais articulações do hálux —, e estudos comparativos mostram alívio de dor e resultados funcionais bons, em geral com dor um pouco menor do que após a colocação de uma prótese (Park et al., 2019). As próteses (implantes de interposição ou hemiartroplastia, incluindo modelos de cartilagem sintética mais recentes) são uma alternativa que preserva algum movimento da articulação, com resultados iniciais promissores em alguns estudos (Hoskins et al., 2023), mas ainda são pouco usadas na prática — só 0,2% dos casos no registro sueco (Cöster et al., 2020) — e a evidência de longo prazo segue em construção, sendo por isso considerada mais controversa do que a artrodese (Lam et al., 2017). Na minha prática, a prótese da primeira metatarsofalângica é uma das opções que realizo em casos selecionados, quando o perfil do paciente e o grau da artrose favorecem preservar o movimento — sempre depois dessa conversa honesta sobre o que a evidência mostra.

A definição da técnica mais adequada para cada caso é individual, considerando o grau da artrose, a idade, o nível de atividade e as expectativas do paciente, e é discutida em detalhe durante a avaliação.

Radiografia intraoperatória de prótese na primeira articulação metatarsofalângica, caso operado pelo Dr. Caio Fábio
Radiografia intraoperatória de um caso real operado pelo Dr. Caio Fábio: prótese na articulação da base do dedão, com alinhamento preservado. Imagem publicada com autorização do paciente; resultados variam de pessoa para pessoa.

Quando procurar avaliação — atendimento em Fortaleza e Eusébio

Vale procurar avaliação quando a dor no dedão já interfere na caminhada ou no impulso do passo, quando a rigidez vem piorando de forma perceptível ao longo de meses, quando surge ou cresce um calo ósseo no topo da articulação, ou quando calçados fechados e de sola flexível se tornaram desconfortáveis. A avaliação inclui exame clínico — teste da amplitude de movimento da articulação, palpação do osteófito — e radiografia com carga, que ajuda a definir o grau da artrose e orientar a conduta.

O atendimento é feito pelo Dr. Caio Fábio, ortopedista especializado em pé e tornozelo, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590, na unidade de Fortaleza (bairro Meireles) e na unidade de Eusébio, com estacionamento no local nas duas unidades. Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para avaliação inicial e orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.

Referências científicas (7)
  1. Coughlin MJ & Shurnas PS (2003). Hallux rigidus: grading and long-term results of operative treatment. The Journal of Bone and Joint Surgery (American). DOI 10.2106/00004623-200311000-00003
  2. Lam A, Chan JJ, Surace MF & Vulcano E (2017). Hallux rigidus: How do I approach it? World Journal of Orthopedics. DOI 10.5312/wjo.v8.i5.364
  3. Senga Y et al. (2021). Prevalence of and risk factors for hallux rigidus: a cross-sectional study in Japan. BMC Musculoskeletal Disorders. DOI 10.1186/s12891-021-04666-y
  4. Sidon E et al. (2019). Long-term Follow-up of Cheilectomy for Treatment of Hallux Rigidus. Foot & Ankle International. DOI 10.1177/1071100719859236
  5. Cöster MC, Cöster ME & Montgomery F (2020). Hallux rigidus - Osteoarthritis of the first MTP-joint. Surgical and patient-reported results from Swefoot. Foot and Ankle Surgery. DOI 10.1016/j.fas.2020.07.008
  6. Park YH et al. (2019). Implant Arthroplasty versus Arthrodesis for the Treatment of Advanced Hallux Rigidus: A Meta-analysis of Comparative Studies. The Journal of Foot and Ankle Surgery. DOI 10.1053/j.jfas.2018.08.045
  7. Hoskins T et al. (2023). Synthetic cartilage implant hemiarthroplasty versus cheilectomy for the treatment of hallux rigidus. European Journal of Orthopaedic Surgery & Traumatology. DOI 10.1007/s00590-022-03469-8

Referências verificadas em bases indexadas (PubMed) antes da publicação. O texto resume os achados de forma acessível; a leitura dos estudos originais é recomendada para o aprofundamento técnico.

Perguntas frequentes

Hálux rígido é joanete?

Não. São condições diferentes que afetam a mesma articulação: o joanete é um desvio lateral do dedão, e o hálux rígido é uma artrose que trava o movimento da articulação, geralmente sem esse desvio. As duas podem, porém, coexistir na mesma pessoa (Senga et al., 2021).

Tem como tratar sem cirurgia?

Sim, e deve ser sempre a primeira tentativa. Calçado de sola rígida ou rocker, ajuste de atividade, anti-inflamatórios, fisioterapia e, em casos selecionados, infiltração costumam controlar bem os sintomas, principalmente nos graus iniciais (Lam et al., 2017).

Palmilha ajuda?

Uma palmilha ou órtese com reforço rígido sob o hálux segue a mesma lógica do calçado de sola rígida: reduzir a exigência de dobra sobre a articulação já desgastada, o que costuma aliviar a dor no impulso do passo (Lam et al., 2017).

O que é queilectomia?

É a cirurgia que remove o osteófito do topo da articulação, preservando a articulação e o movimento. É indicada com bons resultados de longo prazo, sobretudo nos graus iniciais e em casos selecionados de grau intermediário (Coughlin & Shurnas, 2003; Sidon et al., 2019).

A artrodese trava o pé todo?

Não. A artrodese trava apenas a articulação da base do dedão, fundindo-a de forma permanente — as demais articulações do pé e do próprio dedão continuam se movendo normalmente. É uma técnica consolidada para os graus mais avançados, com bons resultados de dor e função — ao lado da artroplastia (prótese), que preserva o movimento; a escolha depende da indicação individual (Lam et al., 2017; Park et al., 2019).

Vou poder voltar a correr?

Depende do grau da artrose, do tratamento escolhido e da evolução individual de cada caso — não é uma promessa que se possa fazer de forma genérica. O retorno a atividades de impacto é discutido e acompanhado ao longo do tratamento, conforme a resposta de cada paciente.

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