Lesões de Pé e Tornozelo

Sesamoidite: dor embaixo do dedão do pé — causas e tratamento

26 de agosto de 20267 min de leitura
Dr. Caio Fábio, ortopedistaDr. Caio Fábio CRM-CE 12791 · RQE 8590

Resposta rápida

A sesamoidite é a inflamação de um dos dois pequenos ossos sesamoides sob a cabeça do primeiro metatarso, causada por sobrecarga repetida em esportes de impacto na ponta do pé. É uma condição que costuma responder bem ao tratamento conservador, mas antes de tratar como sesamoidite é preciso diferenciar de causas mais raras, como fratura por estresse e necrose avascular do sesamoide.

Pé na ponta durante impulso na areia, movimento que sobrecarrega a região sob a cabeça do primeiro metatarso — imagem ilustrativa
Kashtanskaya — CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons), recorte

Sesamoidite: a resposta rápida

Você sente uma dor bem localizada embaixo do dedão do pé, na base — não no meio da planta, não no calcanhar, mas exatamente sob a cabeça do primeiro metatarso, perto de onde o dedão dobra. Ela piora quando você fica na ponta dos pés, empurra o corpo para a frente ao caminhar ou correr, ou usa um calçado de salto — e melhora, ainda que parcialmente, com o repouso. Se esse padrão é familiar, a hipótese mais provável tem nome: sesamoidite, a irritação de um dos dois pequenos ossos sesamoides que ficam sob a cabeça do primeiro metatarso (Sims & Kurup, 2014).

Vale entender desde já que a sesamoidite é apenas uma das causas de dor nessa região — fratura por estresse e necrose avascular do sesamoide também doem de forma parecida, e diferenciar uma da outra muda o tratamento (Sims & Kurup, 2014). Este texto explica o que são os sesamoides, o que é a sesamoidite dentro desse espectro de causas, em quem costuma acontecer, como reconhecer e o que a evidência científica mostra sobre o tratamento — sempre a partir de fontes verificadas, sem inventar números que a pesquisa ainda não confirmou. Se a dor está na frente do pé de forma mais ampla, não só sob o dedão, o texto sobre metatarsalgia trata das causas mais frequentes dessa região.

O que são os sesamoides

Debaixo da cabeça do primeiro metatarso — o osso longo que sustenta a base do dedão — existem dois pequenos ossos, chamados sesamoides. Eles ficam encaixados dentro do tendão do flexor curto do hálux, um dos tendões que dobra o dedão para baixo, e por isso se movem junto com ele a cada passo. Anatomicamente, fazem parte de um conjunto chamado complexo sesamoide do hálux, que reúne os dois ossos, os tendões flexores e os ligamentos plantares da articulação do dedão (Sanders & Rathur, 2008).

A função dos sesamoides é mecânica: eles funcionam como uma polia, aumentando a força de tração do tendão flexor sobre o dedão, e como um amortecedor, absorvendo parte do peso do corpo que passa pela cabeça do primeiro metatarso a cada passada, corrida ou salto (Sims & Kurup, 2014). É justamente por sustentar essa carga repetida que os sesamoides são um ponto comum de dor por sobrecarga — o texto sobre anatomia do pé detalha como essa e outras estruturas se organizam no pé como um todo.

O que é a sesamoidite (e o que mais pode ser)

O termo sesamoidite descreve, de forma ampla, a inflamação ou irritação de um dos sesamoides por sobrecarga repetida — não por um evento único de trauma (Sims & Kurup, 2014). Mas o mesmo padrão de dor sob a cabeça do primeiro metatarso pode ter outras origens que precisam ser diferenciadas, porque mudam a conduta: a fratura por estresse do sesamoide, causada por sobrecarga progressiva sobre o osso, e a necrose avascular, uma condição mais rara em que o sesamoide perde parte do seu suprimento sanguíneo e o osso se fragmenta (Sims & Kurup, 2014; Toussirot et al., 2003).

Um detalhe que complica o diagnóstico por imagem: é comum que o sesamoide medial nasça dividido em duas partes — o chamado sesamoide bipartido —, uma variação anatômica normal, sem relação com dor. O problema é que essa imagem, num raio-X, pode ser confundida com uma fratura do próprio sesamoide bipartido, e vice-versa: um caso já registrado na literatura envolveu justamente essa armadilha diagnóstica num atleta, em que uma fratura real foi inicialmente lida como a variação bipartida esperada (Lee et al., 2019). Por isso, diante de um sesamoide bipartido associado a dor, a investigação não deve parar no raio-X simples (Sanders & Rathur, 2008).

Radiografia do antepé com destaque para a região dos sesamoides, sob a cabeça do primeiro metatarso
Os sesamoides ficam sob a cabeça do primeiro metatarso (destaque). Na investigação da dor, a radiografia inclui uma incidência axial específica, que os mostra de um ângulo que a imagem convencional não capta bem. · Radiografia: Mikael Häggström, CC0 — Wikimedia Commons; destaque próprio

Em quem costuma acontecer

A sesamoidite e as demais dores sesamoides aparecem, sobretudo, em atividades que colocam peso repetido sobre a ponta do pé: corrida, dança — especialmente o balé, pela postura sustentada na ponta dos pés — e esportes que exigem impulso constante a partir do dedão (Sims & Kurup, 2014; Andrews et al., 2021). O beach tennis, praticado na areia — que absorve parte do impacto, mas exige empurrar o corpo repetidamente a partir da ponta do pé a cada deslocamento —, segue essa mesma lógica de sobrecarga sobre o primeiro metatarso.

Outros fatores associados incluem o uso frequente de calçado de salto alto, que desloca o peso do corpo para a frente do pé, e o pé cavo (com arco mais alto que o habitual), que tende a concentrar mais pressão sob a cabeça dos metatarsos, incluindo os sesamoides (Andrews et al., 2021).

Sintomas: como reconhecer a dor sob o dedão

O sintoma central é uma dor bem localizada embaixo da cabeça do primeiro metatarso, sob o dedão — não espalhada pela planta do pé inteira. Ela costuma piorar ao ficar na ponta dos pés, no impulso final do passo (a fase em que o dedão dobra para trás ao empurrar o corpo para a frente) e ao usar calçado de sola fina ou salto alto; e costuma melhorar, ainda que parcialmente, com repouso e calçado de sola mais rígida (Sims & Kurup, 2014).

Ao exame, dois achados ajudam a localizar o problema: dor à palpação direta sobre o sesamoide afetado, e dor reproduzida ao forçar a dorsiflexão do dedão — dobrá-lo para cima, como no momento de dar o passo (Andrews et al., 2021). Diferente de uma fratura aguda, normalmente não há um trauma único que explique o início: a dor cresce aos poucos, ao longo de dias ou semanas de treino.

Diagnóstico: exame clínico e radiografia com incidência axial

O diagnóstico começa pelo exame clínico — localização da dor, palpação direta do sesamoide e teste de dorsiflexão do dedão — associado à história de atividade física (Andrews et al., 2021). A radiografia com carga, de pé, sustentando o peso do corpo, é o exame inicial de imagem, e deve incluir a incidência axial específica dos sesamoides, que os mostra de um ângulo que a radiografia convencional do pé não capta bem (Sanders & Rathur, 2008).

Quando o raio-X não é conclusivo, ou quando é preciso diferenciar sesamoidite de fratura por estresse ou de necrose avascular, a ressonância magnética é o exame mais indicado, por mostrar alterações no próprio osso — como edema interno ou perda de sinal que sugere necrose — antes que apareçam numa radiografia simples (Sims & Kurup, 2014; Toussirot et al., 2003). A cintilografia óssea também pode ser usada nesse processo de investigação, em casos selecionados (Sanders & Rathur, 2008).

Tratamento conservador: a primeira linha

A sesamoidite responde, na maioria dos casos, ao tratamento conservador, e ele deve ser sempre a primeira linha antes de considerar qualquer procedimento cirúrgico (Sims & Kurup, 2014). As medidas centrais são a descarga da região — reduzir a pressão direta sobre o sesamoide afetado — e a modificação temporária da atividade física que provoca a dor.

Na prática, a descarga costuma envolver uma palmilha ou órtese com um recorte posicionado exatamente sob o sesamoide dolorido, além de um calçado de sola rígida ou com solado tipo rocker, que facilita o rolamento do pé sem exigir que o dedão dobre tanto (Sims & Kurup, 2014; Andrews et al., 2021). É importante alinhar as expectativas: a melhora costuma ser gradual, não imediata — o tratamento conservador exige tempo e continuidade para funcionar. Quando fratura e necrose avascular já foram descartadas por imagem, a infiltração guiada por fluoroscopia é uma opção descrita na literatura para os casos que não respondem apenas às medidas iniciais (Sims & Kurup, 2014). Terapias mais recentes, como ondas de choque extracorpóreas e plasma rico em plaquetas, também vêm sendo estudadas como alternativas conservadoras antes de indicar cirurgia, embora a evidência ainda esteja em construção (Nakajima, 2025).

Quando a cirurgia entra

A cirurgia — a sesamoidectomia, remoção parcial de um dos dois sesamoides ou, mais raramente, total — é reservada para os casos que não respondem ao tratamento conservador bem conduzido, e é considerada um último recurso, não a primeira opção (Sims & Kurup, 2014). Uma revisão sistemática que reuniu estudos sobre sesamoidectomia encontrou bons resultados clínicos, com a maior parte dos pacientes retornando ao esporte, mas também identificou uma taxa relevante de complicações (Shimozono et al., 2018).

Entre os riscos descritos está o desequilíbrio da musculatura que estabiliza o dedão, já que os sesamoides fazem parte da inserção dos tendões flexores — a remoção, especialmente quando os dois sesamoides são retirados, pode favorecer o desenvolvimento de desvios do dedão, como o hálux valgo (joanete) ou o hálux varo, ao longo do tempo (Shimozono et al., 2018). Por isso a decisão cirúrgica é individualizada, e o sesamoide costuma ser preservado sempre que uma alternativa viável existir.

Quando procurar avaliação sem demora

A maior parte dos quadros de dor sob o dedão evolui de forma gradual e responde ao ajuste de carga — mas alguns sinais merecem avaliação sem demora: dor que começou de forma súbita, associada a um evento específico, sugerindo fratura aguda; dor que piora de forma progressiva apesar do repouso e da descarga; ou dor que já dura semanas sem nenhuma melhora com as medidas iniciais. Nesses cenários, a radiografia com incidência axial dos sesamoides — e, se necessário, a ressonância magnética — ajuda a diferenciar sesamoidite de fratura por estresse ou de necrose avascular, condições que exigem uma conduta diferente (Sims & Kurup, 2014).

Atendimento em Fortaleza e Eusébio

A avaliação da dor sob o dedão inclui o exame clínico do sesamoide, a palpação direta, o teste de dorsiflexão do hálux e, quando indicado, a radiografia com incidência axial dos sesamoides ou a ressonância magnética. A partir daí, a orientação é individualizada: descarga com palmilha, ajuste de calçado e de carga de treino e, quando necessário, encaminhamento para tratamento mais específico.

O atendimento é feito pelo Dr. Caio Fábio, ortopedista especializado em pé e tornozelo, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590, na unidade de Fortaleza (bairro Meireles) e na unidade de Eusébio, com estacionamento no local nas duas unidades. Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para avaliação inicial e orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.

Referências científicas (7)
  1. Sims AL & Kurup HV (2014). Painful sesamoid of the great toe. World Journal of Orthopedics. DOI 10.5312/wjo.v5.i2.146
  2. Andrews NA et al. (2021). Diagnosis and conservative management of great toe pathologies: a review. Postgraduate Medicine. DOI 10.1080/00325481.2021.1895587
  3. Sanders TG & Rathur SK (2008). Imaging of Painful Conditions of the Hallucal Sesamoid Complex and Plantar Capsular Structures of the First Metatarsophalangeal Joint. Radiologic Clinics of North America. DOI 10.1016/j.rcl.2008.09.001
  4. Lee SYS et al. (2019). Fracture of a Bipartite Medial Hallux Sesamoid Masquerading as a Tripartite Variant: A Case Report and Review of the Literature. The Journal of Foot and Ankle Surgery. DOI 10.1053/j.jfas.2018.12.019
  5. Toussirot E et al. (2003). Avascular Necrosis of the Hallucal Sesamoids: Update with Reference to Two Case-Reports. Joint Bone Spine. DOI 10.1016/s1297-319x(03)00061-7
  6. Shimozono Y et al. (2018). Sesamoidectomy for Hallux Sesamoid Disorders: A Systematic Review. The Journal of Foot and Ankle Surgery. DOI 10.1053/j.jfas.2018.03.044
  7. Nakajima K (2025). Avoiding Hallux Sesamoidectomy: A Narrative Review. Journal of Clinical Medicine. DOI 10.3390/jcm14217687

Referências verificadas em bases indexadas (PubMed) antes da publicação. O texto resume os achados de forma acessível; a leitura dos estudos originais é recomendada para o aprofundamento técnico.

Perguntas frequentes

O que é o osso sesamoide?

São dois pequenos ossos encaixados no tendão do flexor curto do hálux, sob a cabeça do primeiro metatarso, que funcionam como uma polia e como um amortecedor durante o passo (Sanders & Rathur, 2008; Sims & Kurup, 2014).

Sesamoidite tem cura?

Sim. É uma condição que responde bem ao tratamento conservador na maioria dos casos, com melhora gradual da dor a partir da descarga, do ajuste de calçado e da carga de treino (Sims & Kurup, 2014).

Quanto tempo demora para melhorar?

Não há um prazo fixo estabelecido na literatura — a melhora costuma ser gradual, e depende da aderência às medidas de descarga e do ajuste de carga de treino. O acompanhamento médico ajuda a definir a evolução esperada em cada caso.

Posso continuar treinando?

Depende da intensidade da dor e da resposta ao ajuste inicial. O caminho costuma ser a modificação temporária da atividade, reduzindo o impacto sobre a ponta do pé, em vez de parar totalmente, sempre orientado pelo médico ou fisioterapeuta (Sims & Kurup, 2014).

Quando precisa operar?

Apenas quando o tratamento conservador bem conduzido não resolve a dor. A sesamoidectomia é considerada um último recurso, porque carrega uma taxa de complicações relevante e pode alterar o equilíbrio do dedão a longo prazo (Shimozono et al., 2018).

Como diferenciar de fratura?

Clinicamente pode ser difícil, porque os sintomas se parecem. A diferenciação depende de imagem: radiografia com incidência axial dos sesamoides e, quando necessário, ressonância magnética, que mostra alterações no osso antes de aparecerem no raio-X simples (Sims & Kurup, 2014; Lee et al., 2019).

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