Doença de Sever: dor no calcanhar em crianças e adolescentes
Dr. Caio Fábio — CRM-CE 12791 · RQE 8590Resposta rápida
A doença de Sever é a apofisite do calcâneo, uma irritação temporária da placa de crescimento do calcanhar, comum em crianças e adolescentes que praticam esportes com corrida e salto, como futebol e beach tennis. É uma condição benigna e autolimitada — na maioria dos casos, o tratamento envolve ajustar a carga de treino, não interromper o esporte por completo.

Doença de Sever: a resposta rápida
Seu filho ou sua filha voltou do treino mancando, reclamando de dor no calcanhar — sem susto, sem pancada, sem entorse. Ou o comentário apareceu solto, "meu pé está doendo", repetido depois de mais um treino de futebol ou de beach tennis. Se essa cena é familiar e a idade está entre 8 e 15 anos, a hipótese mais provável tem nome: doença de Sever, também chamada de apofisite do calcâneo (Ramponi & Baker, 2019).
O nome pode assustar, mas vale desfazer o susto logo no início: a doença de Sever não é uma lesão grave e não é "frescura" ou exagero da criança — é uma irritação temporária da placa de crescimento do calcanhar, ligada ao esporte de impacto numa fase em que o osso ainda está se formando, e não deixa sequela (Ramponi & Baker, 2019). Este texto explica o que é, em quem costuma acontecer, como reconhecer, como é feito o diagnóstico e o que costuma funcionar no tratamento — sempre a partir de evidência científica, sem inventar números que a pesquisa ainda não confirmou. Se a dor no calcanhar apareceu em você, adulto, o texto sobre dor no calcanhar trata das causas mais frequentes nessa fase da vida — a doença de Sever é praticamente exclusiva da infância e da adolescência, enquanto o esqueleto ainda cresce.
O que é a doença de Sever (apofisite do calcâneo)
O calcanhar da criança tem uma particularidade que o do adulto já não tem: uma placa de crescimento, chamada apófise calcânea, uma região de cartilagem na parte de trás do osso do calcanhar por onde ele ainda está se desenvolvendo. É justamente essa região que fica irritada na doença de Sever — daí o nome técnico, apofisite do calcâneo (Fares et al., 2021).
O mecanismo exato ainda não é totalmente conhecido, mas a explicação mais aceita envolve o estresse repetido sobre essa placa de crescimento: a tração do tendão de Aquiles a cada passada, corrida ou salto, somada ao impacto direto do calcanhar contra o chão, sobrecarrega uma região que, na criança, ainda não tem a mesma resistência óssea do adulto (Fares et al., 2021). É um quadro de sobrecarga, não de trauma único — o que ajuda a explicar por que raramente existe um momento exato em que "começou a doer": a dor costuma surgir aos poucos, ao longo de dias ou semanas de treino contínuo.

Em quem costuma acontecer
A doença de Sever costuma aparecer entre os 8 e os 15 anos, no período em que a placa de crescimento do calcanhar ainda está aberta (Ramponi & Baker, 2019), e é descrita como a causa mais comum de dor no calcanhar na infância e na adolescência (Hernandez-Lucas et al., 2024). Está associada a esportes com corrida, salto e mudanças bruscas de direção — futebol, atletismo, corrida cross-country, ginástica, tênis e balé, entre outros (Ramponi & Baker, 2019); outras revisões também associam o quadro ao futebol australiano e ao basquete (Hernandez-Lucas et al., 2024). Pode acometer um pé só ou os dois ao mesmo tempo (Fares et al., 2021).
Um estudo com 430 crianças atletas de futebol, basquete e vôlei encontrou um dado que surpreende à primeira vista: o risco maior não esteve ligado ao sexo, ao peso, ao tipo de piso de treino nem à modalidade esportiva praticada, mas à idade mais nova dentro da faixa estudada e, de forma contraintuitiva, a menos sessões de treino por semana e sessões mais curtas (Martinelli et al., 2019). Na prática, isso reforça que a doença de Sever tem a ver, sobretudo, com a fase de crescimento do osso — e não simplesmente com "treinar demais".
Em Eusébio e na região metropolitana de Fortaleza, onde o futebol de campo e o beach tennis fazem parte da rotina esportiva de muitas crianças e adolescentes desde cedo, a doença de Sever é uma queixa que aparece com frequência no consultório — exatamente pelo tipo de impacto repetido que essas modalidades trazem para o calcanhar ainda em formação.
Como reconhecer: os sinais que os pais notam
O sinal mais comum é a dor no calcanhar que aparece durante ou logo depois do treino ou do jogo — muitas vezes só no fim da atividade, ou já em casa, ao tirar a chuteira ou o tênis. Nos dias seguintes, a dor pode voltar a incomodar nos primeiros passos ao acordar. Diferente de uma torção ou de uma pancada, normalmente não há um momento exato em que "aconteceu": ela cresce aos poucos, ao longo de dias ou semanas de treino contínuo.
Ao exame, o médico costuma usar uma manobra simples chamada squeeze test (teste do aperto do calcanhar): comprimir as laterais do calcanhar, de um lado a outro, ao mesmo tempo. Nas crianças com doença de Sever, esse aperto reproduz a dor, e esse achado costuma ser suficiente, por si só, para estabelecer o diagnóstico clínico (Fares et al., 2021; Ramponi & Baker, 2019). Diferente do que se imagina, inchaço importante, vermelhidão marcante ou febre não costumam fazer parte do quadro típico — quando aparecem, apontam para outra causa, que precisa ser investigada.
Diagnóstico: exame clínico primeiro, raio-X para descartar outras causas
Diferente do que muitos pais esperam, a doença de Sever não depende de um raio-X para ser diagnosticada: o exame clínico, com a história do esporte praticado, a localização típica da dor e o squeeze test positivo, costuma ser suficiente (Fares et al., 2021). Na prática, isso significa que o raio-X não existe para "confirmar" a doença de Sever, e sim para descartar outras causas de dor no calcanhar que exigem uma conduta diferente — como uma fratura ou um processo infeccioso —, principalmente quando o quadro não segue o padrão esperado (Fares et al., 2021).
É comum, inclusive, que radiografias mostrem alguma irregularidade na placa de crescimento mesmo em crianças sem dor nenhuma — o que reforça por que o diagnóstico é, antes de tudo, clínico, e não uma leitura isolada do exame de imagem.
Tratamento: o que funciona (e por que não é preciso parar tudo)
A boa notícia é que a doença de Sever responde bem ao tratamento conservador, e a evidência científica sustenta um conjunto pequeno de medidas: ajuste da carga de treino, calcanheira (uma palmilha ou um calço que eleva levemente o calcanhar), alongamento da panturrilha e do tendão de Aquiles, gelo depois da atividade e, quando indicado, fisioterapia (Fares et al., 2021; Hernandez-Lucas et al., 2024).
Um estudo clínico randomizado comparou três condutas — apenas observar e aguardar, usar uma calcanheira, e um programa de fisioterapia — e chegou a uma conclusão que costuma surpreender: as três reduziram a dor de forma significativa ao longo de três meses, sem diferença relevante entre elas no resultado final; a calcanheira apenas trouxe mais satisfação nas primeiras seis semanas (Wiegerinck et al., 2016). Uma revisão sistemática anterior já apontava para essa mesma direção — a qualidade dos estudos disponíveis ainda é limitada, mas as medidas conservadoras, de forma geral, ajudam a reduzir a dor (James et al., 2013).
Sobre a dúvida mais comum dos pais — se é preciso tirar a criança do esporte por completo —, um estudo recente testou justamente um modelo diferente: em vez de suspender a atividade, a criança e a família são orientadas a ajustar o treino conforme a dor, um "modelo guiado pela dor", combinado com exercícios de fortalecimento. Esse modelo se mostrou viável, seguro e bem tolerado, com boa satisfação das famílias participantes (Hanlon et al., 2026). Isso não significa ignorar a dor — significa ajustar o volume e a intensidade do treino enquanto ela é tratada, em vez de simplesmente proibir o esporte, uma decisão que deve ser conversada com o médico ou o fisioterapeuta que acompanha o caso.
Quando procurar avaliação sem demora
Embora a doença de Sever costume seguir um padrão previsível e benigno, alguns sinais fogem desse padrão típico e merecem avaliação sem demora: dor que aparece ou piora à noite, sem relação com o esporte; inchaço visível e importante no calcanhar; febre; vermelhidão marcante; ou uma dor que não melhora nem um pouco com o repouso. Esses sinais não combinam com o quadro típico da apofisite e podem indicar outra causa — motivo pelo qual, diante deles, o raio-X e uma avaliação mais completa entram em cena (Fares et al., 2021).
Fora desses sinais de alerta, vale procurar o ortopedista sempre que a dor persistir por mais de duas ou três semanas apesar do ajuste de carga e da calcanheira, ou sempre que atrapalhar de forma importante a rotina esportiva ou escolar do seu filho — não porque seja perigoso esperar, mas porque uma avaliação direcionada ajuda a confirmar o diagnóstico e a orientar o tratamento mais adequado para aquele caso específico.
Atendimento em Fortaleza e Eusébio
A avaliação da doença de Sever inclui o exame clínico do calcanhar, o squeeze test, a análise do esporte praticado e da carga de treino, e — quando necessário para descartar outras causas — a radiografia. A partir daí, a orientação é individualizada: ajuste de carga, calcanheira, alongamento e, quando indicado, encaminhamento para fisioterapia.
O atendimento é feito pelo Dr. Caio Fábio, ortopedista especializado em pé e tornozelo, Membro Titular da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), CRM-CE 12791 · RQE 8590, na unidade de Fortaleza (bairro Meireles) e na unidade de Eusébio, com estacionamento no local nas duas unidades. Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para avaliação inicial e orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.
Referências científicas (8)
- Fares MY et al. (2021). Sever's Disease of the Pediatric Population: Clinical, Pathologic, and Therapeutic Considerations. Clinical Medicine & Research. DOI 10.3121/cmr.2021.1639
- Ramponi DR & Baker C (2019). Sever's Disease (Calcaneal Apophysitis). Advanced Emergency Nursing Journal. DOI 10.1097/TME.0000000000000219
- Wiegerinck JI et al. (2016). Treatment of Calcaneal Apophysitis: Wait and See Versus Orthotic Device Versus Physical Therapy, A Pragmatic Therapeutic Randomized Clinical Trial. Journal of Pediatric Orthopedics. DOI 10.1097/BPO.0000000000000417
- James AM et al. (2013). Effectiveness of Interventions in Reducing Pain and Maintaining Physical Activity in Children and Adolescents with Calcaneal Apophysitis (Sever's Disease): A Systematic Review. Journal of Foot and Ankle Research. DOI 10.1186/1757-1146-6-16
- Belikan P et al. (2022). Incidence of Calcaneal Apophysitis (Sever's Disease) and Return-to-Play in Adolescent Athletes of a German Youth Soccer Academy: A Retrospective Study of 10 Years. Journal of Orthopaedic Surgery and Research. DOI 10.1186/s13018-022-02979-9
- Martinelli N et al. (2019). Prevalence and Associated Factors of Sever's Disease in an Athletic Population. Journal of the American Podiatric Medical Association. DOI 10.7547/17-105
- Hanlon SL et al. (2026). The Feasibility of a Novel Exercise Therapy and Activity Modification Intervention for Patients with Sever's Disease. Pilot and Feasibility Studies. DOI 10.1186/s40814-026-01850-6
- Hernandez-Lucas P et al. (2024). Conservative Treatment of Sever's Disease: A Systematic Review. Journal of Clinical Medicine. DOI 10.3390/jcm13051391
Referências verificadas em bases indexadas (PubMed) antes da publicação. O texto resume os achados de forma acessível; a leitura dos estudos originais é recomendada para o aprofundamento técnico.
Perguntas frequentes
Meu filho precisa parar de jogar futebol?
Não necessariamente. Um estudo recente testou um modelo de modificação de atividade guiado pela dor — ajustar o volume do treino em vez de suspendê-lo por completo — e encontrou que essa abordagem foi viável, segura e bem tolerada (Hanlon et al., 2026). O ideal é conversar com o médico ou o fisioterapeuta sobre o ajuste de carga adequado para o caso do seu filho, em vez de decidir sozinho entre parar tudo ou manter tudo igual.
Doença de Sever deixa sequela?
Não. É uma condição associada à fase de crescimento do osso do calcanhar, e a literatura médica não relaciona a doença de Sever a efeitos de longo prazo (Ramponi & Baker, 2019). A tendência é a melhora completa conforme o tratamento é seguido e o esqueleto amadurece.
Quanto tempo dura?
Varia bastante de criança para criança. Em um estudo com jovens atletas de futebol, o tempo até o retorno completo ao esporte foi, em média, de cerca de dois meses, com casos que se resolveram mais rápido e outros que levaram mais tempo — especialmente quando a dor voltou a aparecer depois de uma primeira melhora (Belikan et al., 2022).
Precisa de raio-X?
Na maioria dos casos, não é necessário para fechar o diagnóstico — o exame clínico, com o squeeze test, costuma ser suficiente. O raio-X entra quando o quadro foge do padrão típico, para descartar outras causas de dor no calcanhar, como uma fratura (Fares et al., 2021).
Palmilha ou calcanheira resolve?
Pode ajudar, mas não é a única medida eficaz. Um estudo clínico randomizado comparou calcanheira, fisioterapia e apenas acompanhar a evolução, e as três condutas reduziram a dor de forma parecida ao longo de três meses — a calcanheira trouxe mais satisfação apenas nas primeiras semanas (Wiegerinck et al., 2016).
É por causa do crescimento?
Sim, no sentido de que a doença de Sever só acontece enquanto a placa de crescimento do calcanhar ainda está aberta, numa fase específica da infância e da adolescência (Fares et al., 2021). Mas o "crescer rápido" isolado não explica tudo: um estudo encontrou mais relação com a idade mais nova e com a rotina de treino do que com o ritmo de crescimento em si (Martinelli et al., 2019).
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