Lesões de Pé e Tornozelo

Deformidade de Haglund: o osso saliente atrás do calcanhar

16 de agosto de 20268 min de leitura
Dr. Caio Fábio, ortopedistaDr. Caio FábioCRM-CE 12791 · RQE 8590

Resposta rápida

A deformidade de Haglund é uma proeminência óssea na parte de trás do calcanhar que atrita com o calçado e pode inflamar o tendão de Aquiles e a bursa ao redor. O tratamento começa de forma conservadora, com mudança de calçado, alongamento e fisioterapia, e a cirurgia para remover a saliência fica reservada aos casos que não melhoram apenas com essas medidas.

Calcanhares vistos por trás, destacando a região posterior onde se forma a deformidade de Haglund — imagem ilustrativa

O que é a deformidade de Haglund

A deformidade de Haglund — também conhecida como síndrome de Haglund — é uma proeminência óssea que se forma na parte de trás e de cima do calcâneo, o osso do calcanhar, bem na região onde o tendão de Aquiles se fixa. Se você percebeu um "caroço" ou uma saliência dura atrás do calcanhar, que incomoda principalmente dentro de um sapato fechado, é bem provável que esteja diante desse quadro.

Na literatura internacional, essa deformidade também é conhecida pelo apelido "pump bump" — numa referência aos sapatos de salto com contraforte rígido (o "pump" do inglês), historicamente associados ao atrito constante contra essa saliência. Hoje, o mesmo atrito pode acontecer com qualquer calçado fechado que tenha a parte de trás rígida, não só com salto alto — inclusive tênis de cano mais alto e sapatos sociais usados no trabalho todos os dias.

O ponto importante para entender o tratamento é que o problema raramente se resume ao osso. Bem naquela região, três estruturas ficam espremidas entre si e contra o contraforte do calçado: a própria proeminência óssea, o tendão de Aquiles, que passa logo ao lado, e a bursa retrocalcânea — uma pequena bolsa cheia de líquido que normalmente desliza e reduz o atrito entre o tendão e o osso. Quando essas três estruturas são comprimidas de forma repetida, qualquer uma delas — ou as três juntas — pode inflamar, e é essa combinação, não apenas o tamanho do "caroço", que costuma explicar a intensidade da dor.

Isso ajuda a explicar por que o mesmo "caroço" incomoda tanto quem calça um tênis de corrida com o calcanhar rígido quanto quem usa sapato fechado de couro no trabalho todos os dias: em ambos os casos, é a compressão continuada desse conjunto de estruturas — e não o formato específico do sapato — que mantém a inflamação ativa.

Haglund não é esporão: entenda a diferença

Um dos primeiros pensamentos de quem sente essa saliência é "deve ser esporão" — e essa confusão é bastante comum, já que "esporão" praticamente virou sinônimo popular de qualquer dor óssea relacionada ao calcanhar. Mas os dois quadros são diferentes, e entender essa diferença ajuda a direcionar o cuidado certo desde o início.

O esporão de calcâneo clássico fica embaixo do calcanhar, na sola do pé, ligado à fáscia plantar — a faixa de tecido que sustenta o arco e que costuma doer mais nos primeiros passos da manhã. A deformidade de Haglund, por sua vez, fica atrás do calcanhar, envolvendo o tendão de Aquiles e a bursa, e costuma incomodar mais dentro do calçado fechado do que logo ao sair da cama.

Os sintomas também seguem padrões diferentes entre os dois quadros. No esporão de calcâneo — mais precisamente, na fascite plantar associada a ele —, a dor costuma ser pior logo nos primeiros passos da manhã e melhorar um pouco depois que o pé "esquenta". Já na deformidade de Haglund, o padrão costuma ser outro: a dor tende a acompanhar o uso do calçado fechado ao longo do dia, e não necessariamente o primeiro passo ao acordar — muitas vezes é o próprio ato de calçar um sapato mais rígido que desencadeia o incômodo, mais do que o horário do dia.

Tratar a região errada por causa dessa confusão custa tempo: orientações voltadas para a fáscia plantar, por exemplo, pouco ajudam quando o problema real está no atrito entre o tendão de Aquiles, a bursa e o calçado, na parte de trás do pé. Por isso, identificar corretamente qual das duas situações você tem — ou se as duas convivem ao mesmo tempo, o que também acontece — é o primeiro passo antes de qualquer tratamento.

Como a localização, o padrão de piora e o próprio tratamento diferem entre os dois quadros, vale conferir o mapa completo de causas por localização no artigo sobre dor no calcanhar — ele ajuda a diferenciar até os casos em que mais de uma causa aparece ao mesmo tempo, o que não é incomum na prática.

Sintomas: quando o sapato vira inimigo

O sintoma mais característico da deformidade de Haglund é a dor e a vermelhidão na parte de trás do calcanhar, bem no ponto em que o contraforte do sapato encosta na pele. Não é incomum perceber que a dor piora nitidamente com determinado calçado — principalmente os modelos mais fechados e rígidos — e melhora quando você anda descalço ou de sandália, um padrão que costuma chamar atenção de quem já reparou nessa relação direta com o tipo de sapato usado no dia a dia.

Também é comum notar inchaço na região, às vezes visível a olho nu como uma saliência mais avermelhada, e em outros casos perceptível apenas ao passar o dedo sobre o local. Quando o tendão de Aquiles se inflama junto — o que acontece com frequência, já que ele fica bem ao lado da proeminência óssea —, a dor também pode aparecer ao subir escadas, ladeiras ou ao se apoiar na ponta do pé, e a rigidez logo pela manhã, nos primeiros passos, costuma se somar ao quadro.

No início, é comum confundir esse desconforto com uma simples bolha ou calo formado por um sapato novo, já que a sensação de atrito é parecida. A diferença aparece com o tempo: a bolha ou o calo tendem a melhorar quando você troca de calçado por alguns dias, enquanto a dor da deformidade de Haglund tende a voltar assim que você volta a usar um sapato fechado, porque a causa é a própria estrutura óssea, e não apenas o atrito pontual daquele par específico.

A pele sobre a saliência às vezes fica mais espessa ou calejada, como resposta ao atrito constante — uma espécie de calo que se forma na tentativa do corpo de se proteger daquele contato repetido. É comum também que o quadro apareça nos dois pés ao mesmo tempo, já que o formato do calcâneo costuma ser semelhante dos dois lados, embora um deles frequentemente incomode mais do que o outro, dependendo de pequenas diferenças de uso e apoio entre os dois pés.

É bem comum perceber que a dor se torna previsível: muita gente já sabe, antes mesmo de calçar, quais pares de sapato vão incomodar mais — geralmente os mais fechados, com contraforte mais rígido — e quais permitem passar o dia com menos desconforto. Essa relação direta entre o sintoma e o calçado usado é, inclusive, uma das pistas mais úteis para diferenciar esse quadro de outras causas de dor no calcanhar.

Por que a saliência se forma

Não existe uma causa única para a deformidade de Haglund — geralmente é uma combinação de fatores. O formato do osso do calcanhar varia de pessoa para pessoa, e algumas têm uma tendência individual, às vezes repetida na família, a desenvolver essa proeminência mais acentuada. O pé cavo — com o arco mais alto do que o habitual — também costuma estar associado, provavelmente porque altera o ângulo com que o calcâneo se posiciona dentro do calçado.

O tendão de Aquiles encurtado ou mais tenso do que o ideal é outro fator relevante: ele traciona o osso de um jeito que pode favorecer o crescimento da saliência ao longo do tempo. Some-se a isso o uso prolongado de calçado com contraforte rígido — por muitas horas seguidas, dia após dia — e, em corredores, o aumento no volume de treino sem um período de adaptação, o que eleva a exigência sobre essa região a cada passada.

A rotina também conta: quem passa muitas horas seguidas em pé ou caminhando com sapato fechado — no trabalho, em compromissos sociais ou mesmo em viagens mais longas — dá menos chance para a região descansar do atrito entre um uso e outro. Já quem intercala calçados fechados com momentos descalço ou de sandália ao longo do dia costuma dar um alívio natural à região, mesmo sem perceber.

Com esse atrito repetido entre o osso e o calçado, a bursa retrocalcânea — a bolsinha que mencionamos antes, cuja função é reduzir o contato direto entre o tendão e o osso — também pode inflamar, quadro chamado de bursite retrocalcânea. Ela costuma surgir como consequência desse processo, mais do que como uma causa isolada, e ajuda a explicar por que a dor às vezes parece desproporcional ao tamanho da saliência sentida por fora.

Diagnóstico: exame clínico e imagem

Na maioria dos casos, a palpação cuidadosa da região e a sua própria história — quando a dor aparece, com qual calçado ela piora, há quanto tempo você percebeu o "caroço" — já apontam bastante o caminho diagnóstico. O médico observa o formato da região, verifica sinais de inflamação e testa a sensibilidade ao toque no ponto exato da queixa.

Um teste simples costuma compor o exame físico: comprimir lateralmente a saliência óssea, comparando com a pressão direta sobre o tendão de Aquiles um pouco mais abaixo, ajuda o médico a identificar se a dor vem mais do osso, do tendão ou da bursa — uma diferenciação que orienta boa parte da conduta inicial.

A radiografia de perfil, feita com você em pé (com carga sobre o pé), costuma ser o exame inicial mais solicitado, porque mostra bem o formato do calcâneo e o tamanho da proeminência óssea nessa projeção lateral.

A radiografia também ajuda a afastar outras causas de dor na mesma região, como uma fratura ou uma alteração óssea menos comum, embora essas hipóteses sejam bem menos frequentes do que a própria deformidade de Haglund.

Esses passos — exame clínico e radiografia — costumam ser suficientes para orientar o início do tratamento na maior parte dos casos, sem a necessidade imediata de exames mais complexos.

Quando a suspeita é de que o tendão de Aquiles ou a bursa também estejam envolvidos — cenário comum, já que a deformidade de Haglund costuma andar lado a lado com uma tendinopatia insercional do Aquiles —, o ultrassom ou a ressonância magnética podem ser solicitados para avaliar essas partes moles com mais detalhe, incluindo o grau de espessamento do tendão e o volume de líquido dentro da bursa, complementando a informação óssea já obtida na radiografia.

Tratamento conservador: o primeiro caminho

A mudança de calçado costuma ser a primeira e mais importante medida no tratamento da deformidade de Haglund. Priorizar modelos com contraforte macio, ou abertos atrás — como tamancos e sandálias com tira —, e evitar por um período aqueles com a parte de trás mais rígida ajuda a reduzir o atrito direto que mantém a região inflamada; o tempo necessário nesse regime mais protetor varia de pessoa para pessoa, conforme a resposta observada.

Além do contraforte, vale observar o ajuste geral do calçado na região do calcanhar: um sapato largo demais nessa parte faz o pé deslizar e aumenta o atrito a cada passo, enquanto um ajuste adequado, com um contraforte que acompanha o formato do calcanhar sem apertar, tende a reduzir esse movimento repetitivo contra a pele.

Pequenas elevações de calcanhar dentro do calçado podem ser consideradas por um período: ao elevar ligeiramente o calcanhar, elas reduzem um pouco o ângulo de tração do tendão de Aquiles e afastam a saliência óssea do ponto de maior atrito com o contraforte, o que tende a aliviar o desconforto enquanto a inflamação melhora.

Alongamento e fortalecimento excêntrico da panturrilha, orientados por fisioterapia — no acompanhamento do Dr. Caio Fábio, essa etapa é conduzida em parceria com a fisioterapeuta Dra. Lucymilla Guimaro —, costumam compor o restante do plano conservador, junto com o uso de gelo local depois de atividades físicas, para ajudar a controlar a inflamação no dia a dia.

Vale reforçar que esse conjunto de medidas — calçado, calcanheira, alongamento, fisioterapia e gelo — costuma ser usado de forma combinada, não isolada, e a resposta é gradual: raramente a dor desaparece de um dia para o outro, e alguma paciência com o processo costuma ser necessária enquanto a região desinflama.

Para os quadros em que há uma tendinopatia insercional do Aquiles crônica associada, que não melhorou apenas com essas medidas, a terapia por ondas de choque pode ser considerada, conforme avaliação individual do caso — sempre como parte de um plano mais amplo, não como solução isolada.

Cirurgia: quando e como é feita

A cirurgia é reservada para quem não apresentou melhora satisfatória depois de meses de tratamento conservador bem conduzido — boa parte dos casos responde ao ajuste de calçado e à fisioterapia antes de chegar a essa conversa.

Antes de indicar a cirurgia, a avaliação costuma incluir exames de imagem mais detalhados, para confirmar com precisão o tamanho da proeminência óssea e o estado do tendão de Aquiles e da bursa — informação que ajuda a planejar exatamente o que será tratado durante o procedimento.

Quando indicada, a cirurgia remove a proeminência óssea que causa o atrito, e trata o tendão de Aquiles e a bursa conforme o que for encontrado durante a avaliação e o próprio procedimento — em alguns casos, o reparo do tendão de Aquiles é feito na mesma cirurgia, quando ele também está comprometido. Técnicas menos invasivas, incluindo abordagens endoscópicas, podem ser uma opção em casos selecionados, a depender das características de cada caso.

A decisão de operar ou não é sempre individual, e leva em conta sua rotina, o esporte que você pratica e suas próprias expectativas em relação ao resultado. A recuperação varia conforme a técnica utilizada e a extensão do procedimento — o retorno às atividades acontece de forma gradual, sempre orientado caso a caso, sem um prazo único válido para todo mundo.

Atendimento em Fortaleza e Eusébio

Se você corre pelas ruas e condomínios de Fortaleza e Eusébio, pedala, joga beach tennis na praia, ou simplesmente usa sapato fechado e mais rígido no trabalho todos os dias, a região de trás do calcanhar fica sujeita a um atrito repetido que pode favorecer a deformidade de Haglund. Isso vale tanto para quem treina com regularidade quanto para quem passa a maior parte do dia em ambiente de escritório, com sapato social ou fechado no trabalho.

O Dr. Caio Fábio, ortopedista, Membro Titular da SBOT e Membro da ABTPé (CRM-CE 12791 · RQE 8590), atende em Fortaleza (Meireles) e Eusébio (CE), com estacionamento no local. Para pacientes de outras cidades, estados ou países, a teleconsulta é uma opção para avaliação inicial e orientação sobre os próximos passos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp (85) 99826-1867.

Perguntas frequentes

O "caroço" atrás do calcanhar some sozinho?

A proeminência óssea em si não regride sozinha — ela é, de fato, um osso, e não tende a diminuir de tamanho espontaneamente. A inflamação ao redor dela, no entanto, pode melhorar bastante com o tratamento conservador, o que costuma reduzir a dor mesmo quando a saliência continua palpável.

Qual calçado usar com deformidade de Haglund?

O critério mais importante é o contraforte: priorize modelos macios ou abertos atrás, como tamancos e sandálias com tira no calcanhar, e evite por um período sapatos com a parte de trás rígida. Quando o calçado fechado é necessário no dia a dia, vale buscar modelos com forro macio nessa região ou considerar um ajuste feito por um sapateiro.

Haglund e esporão de calcanhar são a mesma coisa?

Não. O esporão de calcâneo clássico fica embaixo do calcanhar, ligado à fáscia plantar, enquanto a deformidade de Haglund fica atrás, envolvendo o tendão de Aquiles e a bursa. São dois quadros com localização, padrão de dor e tratamento diferentes, apesar da confusão comum entre os dois nomes.

Ondas de choque ajudam na deformidade de Haglund?

Podem ajudar no componente inflamatório do tendão de Aquiles, quando há uma tendinopatia insercional crônica associada, sempre conforme avaliação individual do caso. Elas não reduzem nem removem a proeminência óssea em si — atuam no entorno inflamado, não na saliência do osso.

Como é a recuperação da cirurgia de Haglund?

A recuperação varia conforme a técnica utilizada e se o tendão de Aquiles também precisou de reparo durante o procedimento. De forma geral, o retorno às atividades acontece de forma gradual e orientada, sem um prazo fixo que sirva igualmente para todos os casos.

Continue a leitura

Pessoa sentada pressionando o calcanhar com o polegar, na região típica da dor no calcanhar — imagem ilustrativa
Lesões de Pé e Tornozelo

Dor no calcanhar: o que pode ser e como tratar

A dor no calcanhar costuma ter causas diferentes conforme a localização: embaixo, a mais comum costuma ser a fascite plantar; atrás, o tendão de Aquiles e a deformidade de Haglund tendem a ser os principais suspeitos. O tratamento inicial costuma ser conservador — ajuste de calçado, alongamento e fisioterapia —, e uma avaliação especializada é recomendada quando a dor persiste.

9 min de leituraLer artigo
Fisioterapeuta tratando tendão do tornozelo de paciente — imagem ilustrativa
Dores Articulares Gerais

Tendinopatia: o que é, principais tipos e como tratar

Tendinopatia é o termo amplo usado para alterações dolorosas no tendão, geralmente relacionadas a sobrecarga e a processos degenerativos das fibras — mais comuns na prática clínica do que a inflamação pura sugerida pelo nome popular "tendinite". O tratamento conservador, com ajuste de carga e fisioterapia, costuma ser a base da abordagem, e recursos como ondas de choque e ortobiológicos podem ser considerados conforme avaliação individual.

9 min de leituraLer artigo
Pessoa correndo descalça na praia, foco no calcanhar — imagem ilustrativa
Lesões de Pé e Tornozelo

O que é fascite plantar e como tratar

A fascite plantar é a sobrecarga do tecido que sustenta o arco do pé, e o sintoma mais característico é a dor no calcanhar logo nos primeiros passos do dia. Na grande maioria dos casos, o tratamento é conservador — alongamento, calçado adequado e fisioterapia —, e as ondas de choque entram como opção nos quadros crônicos que não melhoraram só com essas medidas.

10 min de leituraLer artigo

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Fale diretamente pelo WhatsApp (85) 99826-1867 e agende uma avaliação para uma orientação individualizada.

Este site tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Publicidade médica em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.

Agendar avaliação pelo WhatsApp